quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Cartas para Charles V

Charles,

Dezembro chegou com o tilintar dos sinos e decoração natalina. Aqui nenhum pisca-pisca se atreve a mostrar sua luz, quando tudo é completa escuridão. Agora que tudo vai acabando eu me pergunto porque é que dezembro mora no fim. É o fim de tudo. Do ano, da primavera e de nós.

Charles, não tenho mais resistência para ficar andando contra o destino. Ele sempre irá me levar para o mais distante de ti, ainda que você more dentro de mim. Não sei mais por quanto tempo eu poderei aprisionar todas essas lembranças comigo, mas sei que elas vão se esvaindo, perdendo a cor, o cheiro e a textura. São agora meros borrões dos dias que passei contigo, das músicas que ouvimos, das flores que me entregou. E por falar em flores, nem mesmo elas resistiram à sua ausência. Tentaram florir, morreram secas.

Sabe, Charles, você deveria ter me dito quem você realmente era. Que gostava de sorvetes de creme, de dias de sol, de camisas xadrez e de não pertencer a lugar algum. Eu teria me adaptado, me preparado e aceitado mais. Outro dia me atrevi ir até o portão; a rua estava desértica, os vizinhos, eu acho, se mudaram todos. Por desprezo ou respeito ao luto de solidão que instaurei por aqui. Talvez tenham apenas aceitado que o meu cenário se constrói com solidão. E foi você quem colocou o primeiro tijolo desta obra.

Eu olho para o céu à noite e peço baixinho para que em qualquer que seja o lugar que estejas, tu olhes também. Compartilhar esse mesmo céu, me faz perceber que ainda nos pertencemos, mesmo que por tão pouco. Ainda olhando para o céu, eu vejo como o mundo é imenso. Pensar na imensidão do mundo me faz pequena, Charles. Isto acontece quando eu visto suas roupas e fico sobrando dentro delas, quando meu corpo não preenche toda a cama ou quando estou no alto de uma montanha e tudo parece pequeno demais aos meus olhos. Mas houve um espaço em que eu cabia. Eu me encaixava por entre seus braços e acreditava que o mundo é que era pequeno. Porque eu e você, Charles, sempre fomos grandes demais, até para nós mesmos. E foi aí que nos sufocamos.

Agora que é dezembro e tudo vai findando, eu desculpo nossos erros. E que o mundo nos desculpe também. Sei que foi errado acreditar que nós poderíamos mudar alguma coisa ou tentar amar todo o amor do mundo. Mas, meu querido, é típico de nós. Nossa mania de grandeza nos devastou, nos levou para o deserto enquanto buscávamos o mar. Percebemos um pouco tarde que aquela visão de mundo que tínhamos era apenas miragem, pobre de nós. Tão reféns do destino, tão vítimas do acaso!

Charles, eu fui acabando com tudo aos poucos porque não sei lidar mais com nada que seja tão arrasador. Eu deveria ter feito tudo de uma vez, agora no fim eu vejo o quanto tudo isto me custou, mas sei que não poderia ter sido de outra forma. Nós merecíamos esse fim: calmo; mesmo que nunca soubemos ser assim. Sabe, meu amor, eu nunca soube como eu  poderia deixá-lo partir, mas também não posso mais escondê-lo do mundo dentro de mim. Eu não posso me arruinar mais por um pouco mais da tua dor.

Se todos os nossos erros nos condenaram até aqui, então talvez seja esse o fim mais justo. Sem nós, apenas eu e você. Eu me pergunto para quem escrevo, sabendo que estas cartas jamais tocaram suas mãos. Porém, estas palavras são tuas e não devo guardá-las comigo. Que o destino esparrame-as  por aí, que elas jamais façam sentido juntas e que não sirvam para desencorajar aqueles que se prostram à diabólica mania de se amar. Só porque gastamos todo o amor do mundo, não significa que não tenha restado nenhuma migalha. Só não quero mendigá-las. O fim não é como dizem: amargo ou doce demais. É apenas sem gosto. Destemperado. Charles, será pra sempre nosso a primavera que trazia as flores para de volta dos galhos, o sol que voltava após a chuva e a paz que surgia em um abraço depois de nossas brigas. Charles, serei pra sempre sua, mas de uma maneira só nossa. Esqueça-me, pois é o que farei após o ponto final desta frase.

Nunca mais minha,
Serei sempre tua. 





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