Sei que ainda tenho uns mil destinos para te encontrar, e, em todos eles, vamos querer seguir juntos. Mas, meus passos são deveras curtos e os seus apressados. Eu nunca entendi essa sua ânsia de viver tudo de uma vez, mas gostaria de poder saciá-la. Tudo era sempre pouco e você queria mais. Eu me dava por satisfeita por qualquer coisa. Nessas nossas contradições, meu amor foi pequeno demais e você quis algo maior. Partiu no primeiro trem e eu ainda o espero na estação, mesmo que você nunca tenha feito o mesmo por mim.
Eu sempre soube que você não cabia em mim, mas joguei muita coisa fora para que aqui você fizesse morada. Eu ainda guardo aquela tua carteira de cigarro quase vazia e, às vezes, brinco com um cigarro por entre os dedos na tentativa de que eu fique com um pouco do seu cheiro. Não é fácil acostumar-se com sua falta, mas me preencho com aqueles nossos filmes que tanto gostávamos. O difícil mesmo é assistir qualquer coisa sem tua voz repetindo as frases da legenda, ou suas críticas ácidas à todas as atuações mal feitas.
Vez ou outra, alguém até puxa assunto comigo, enquanto vejo os trens partindo e chegando, sentada no banco da estação. Todos parecem tão superficiais, nenhum nunca me tocou no assunto sustentabilidade ou trabalho voluntário. E eles sorriem demais, sou acostumada com tua cara fechada. Digo que tenho que ir, que quem eu esperava deve ter errado o horário e perdido o trem, que volto outro dia. Eu parto assim como você fez, sem muitas explicações ou apego.
Eu continuou com minha vidinha-de-interior. Levanto às seis, cumpro com as obrigações, desperdiço conversas na porta de rua, e leio alguns livros antes de dormir. Às vezes eu choro, um choro calado e abafado pelo travesseiro, mas choro. Eu queria ter coragem de pegar o próximo trem e ir de desencontro com o destino, ao invés de ficar aqui esperando-o voltar. Sou medrosa e me acovardo com o barulho dos trilhos. Volto pra casa e desfaço as malas e programo o despertador para tocar um pouco mais tarde, como forma de rebeldia.
Ainda aprendo a caminhar mais depressa, ou quem sabe, me perder sem medo. Até lá, tomo meu café sempre no mesmo horário, e continuo a brincar com seu cigarro. Quem sabe até não fumo um, pra sentir o gosto que costumava ficar na tua boca....
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