Eu nunca aprendi a andar e tô sempre querendo correr. Caio sempre em seus braços e me arranho nos teus espinhos. Um ou outro ferimento eu me preocupo em colocar band-aids, naqueles que me estampam a pele toda, eu deixo em carne viva. Que ninguém nunca duvide que amar dói, mas que todas essas coisas podem se curar. E você nem se importa em me abraçar enquanto eu sangro esse nosso amor. E me machuco ainda mais quando passa as mãos por minha pele na tentativa de fazer as feridas estancar. Somos um desses casais que se ferem porque nenhum dos dois sabe lidar com sentimentos. Você me esmaga no teu peito de vendaval e eu o afogo com minhas crises de tempestades, e tudo bem se juntos arruinarmos tudo. Na manhã seguinte tem sempre promessa de calmaria.
Se esses nossos lampejos não cessarem, sabemos que continuaremos bem. Na ideia do comodismo, acostumamos até mesmo com o que nos faz mal. E nada me faz tão mal quanto você, assim como a fumaça do seu cigarro. Sei que nesse nosso caos alguma coisa vai se perdendo, eu só espero que não seja o que nos mantém assim.
Não sei bem o porquê, mas acho que é nessa nossa agressão que eu não me entendiei como tantas outras vezes. Não me canso, tô sempre em destruição e reconstrução. Tenho medo quando nos toleramos, quando tua mania de falar demais e a minha de escutar de menos não nos incomoda. Tenho medo quando você se deita e me abraça feliz porque não brigamos durante o dia. Quase que adoeço quando completamos mais um aniversário do nosso relacionamento, tudo vai bem demais... Não somos assim.
Você comete o crime de ignorar minhas mensagens e se atrasa para o jantar. Chega sem dizer muita coisa, e vai logo pedindo o prato principal. Queria os aperitivos acompanhados de um elogio, depois o prato do dia. Fica de cara fechada e eu escuto por muito tempo o seu silêncio. Te pergunto carinhosamente se tá tudo bem e me respondes secamente. Te faço um carinho por debaixo da mesa e olhas para o lado. Tudo bem, respiro mil vezes, tudo está bem. E então desabo. Desespero. Entro em pânico. Começo a rejeitá-lo, escondo-me no silêncio e na rispidez. Tu me adulas, me trata bem, me chama de linda.
Escolhemos as palavras, agredimos um ao outro. Terminamos bem nossa noite. No descaso, no desespero. Meio bêbados e após o último cigarro, nos deitamos sem nos falar. Acordamos no meio da madrugada, sem nada dizer, me aconchego em teus braços e sei que lá reside a promessa de calmaria... Mesmo com tantos estragos.
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