Olho duas vezes antes de abrir a porta e entro no seu carro sem hesitar. Passo o cinto, mudo de música, te dou um olá e mexo no celular. Agora sem mesquinharia ou falso pudor, você me olha com indecência e diz que meu perfume é muito doce. Aumento o volume do rádio e finjo que você nunca disse nada. Você tenta falar sobre o que eu estava fazendo, digo que é tudo muito confuso e assim encerra-se o assunto.
Durante todo o caminho você derrama os seus problemas em meus ouvidos. Tento prestar atenção e te olho algumas vezes demonstrando interesse. Você me beija sem carinho e eu arranho suas costas em protesto. Pergunta o que quero comer e respondo que não tenho fome. Reclama da minha cara pouco satisfeita e diz que meu cabelo está legal.
Aquele quarto de beira de estrada é bem o nosso cenário. Nada de muito luxo, mas sabia enquadrar-se em nós muito bem. Você agride o meu corpo contra a parede e eu cravo os dentes no seu ombro sem remorso. Tudo bem. Encontramos um lugar mais seguro e confortável para a nossa disputa e você acaba ganhando no fim. Como sempre.
Eu me deito em seu peito, sem nada falar, e deixo que mais uma vez você fale incessantemente. Com algumas perguntas, você tenta me fazer sair do silêncio, meio monossilábica deixo tudo como está. É uma boa sensação quando você brinca com seus dedos na minha coluna. Parece até que nós dois sabemos ser sutis, pena que por pouco tempo. Eu brinco com os poucos cabelos do seu peito, e deslizo minha mão sentindo sua respiração, agora lenta e pacífica, enquanto me esqueço do que estou deixando para trás.
Eu queria poder falar de uma vez tudo que vem sempre me calando. Mas, nunca soube expor muito bem, acabaria mentindo. E combinamos de ser sinceros. Agora você se cala e eu volto falando por todo o caminho. Te conto sobre minha infância bem vivida, meu agitada vida-amorosa-adolescente, minha seletiva escolha de parceiros na atualidade. Você não fala muito enquanto dirige. Acho que algo deu errado.
Um beijo no alto da testa e um sorriso de despedida com a promessa de que está tudo bem. Penso duas vezes antes de te dar um tapa na cara e sair do carro. Seria mais prudente. Sem carinhos ou falso sentimentalismo. Típico de nós. Olho em teus olhos e fecho a cara, bato a porta do carro atrás de mim e caminho sem olhar para trás. Fique assim até o próximo quarto.
Dá série: Nossos quartos são campos de batalhas e não cenário de filme de amor.
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