A gente comemorava o natal na páscoa e trocávamos chocolates no natal. Eu vinha trazendo tempestades de areia e você não se abrigava em um lugar seguro, eu te engolia. Sei que você era fortaleza, mas nunca se preocupou em se proteger. Sei que você também nunca soube as datas comemorativas e por isso nunca se importunou de não ter decoração natalina na nossa casa em dezembro.
Você voltava pra casa trazendo pão quentinho e eu passava um café, comíamos juntos no fim de tarde esperando o sol começar a se por para assistirmos juntos. Eu lia as notícias do jornal do dia anterior e ríamos por ver que nada mudou, de fato. Eu ia deitar sempre depois que você já estava sonhando e o acordava sussurrando em seu ouvindo querendo atenção. Meio acordado, passava as mãos no meu cabelo e respondia minhas perguntas-de-madrugada-sem-resposta. Depois te beijava indecentemente e pedia amor ardente.
Num dia frio, você pegou uma mala velha, ajuntou seus pertences e partiu. Sem grandes explicações, sem muitos porquês. Nada fiz para impedir e fiquei sentada no sofá da sala ouvindo seu vinil dos Beatles. Nunca passei tantas noites sem dormir, e mais uma pergunta se juntou àquelas outras de madrugada. Todas sem respostas. Acho que alguém te contou que não era natal, que na páscoa é que se troca chocolates. E bate no relógio onze e dez e sei que é essa a hora que me lembro de você. Não consigo dormir. Onze e dez e tenho perguntas sem responder. Onze e dez. Que demônio! O demônio das onze e dez...
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