Charles,
São dias como esse em que eu quase desisto de te esquecer. O dia já amanhece chorando e as ruas alagadas se afogam junto com meu coração. Escolho outra vez a solidão e me sufoco de saudades suas. Até o silêncio fica mais sólido para que na insanidade eu talvez escute sua voz. Saber que qualquer estranho pode te encontrar na rua me faz querer sair procurando seu olhar. Andar por esquinas que não dão em lugar nenhum e me perder, porque qualquer lugar tem menos a sua presença que dentro de mim.
Outubro mal se fora e novembro se instalara por aqui com devassidão. Seja pelo cheiro da chuva ou pelo barulho dos trovões, essa tempestade me envolve e eu chovo junto com o céu. Tudo aqui é destruição, a começar por mim, e em meio a todo este caos, eu aceito que tudo vá se perdendo, inclusive as lembranças de ti.
De todas as coisas que eu podia sentir falta, eu sinto falta da sua perturbação. Sei que almas turbulentas como a sua só procuram repouso em marés de calmaria. E eu vinha com minhas tempestades e nós dois juntos éramos furacão. Nenhum amor que se preze se estabiliza em destroços como nós costumávamos ser, mas sempre encontrávamos tesouros mesmo frente à nossa destruição e achei que com isso construiríamos nossa fortuna.
Charles, não caibo mais em tanta saudade. Os ponteiros do relógio repetem sua trajetória dia após dia e eu faço o mesmo. Nada muda. Todo dia me levantou e me deito na cama vazia, e interprete isso nos dois sentidos dessa ambiguidade. Não sei se esse vazio sou eu ou o mundo ao qual tenho pertencido, mas tudo tem sido menos completo desde que se fora.
Não sei quantas cartas terei eu que escrever até que eu arranque de mim essa mania de querer falar contigo. São cartas que não chegam ao destinatário e ainda assim persisto em escrever. Charles, quando foi que nos afogamos em tanto sentimento? Achava que tínhamos aquele tipo de amor que duraria para a vida inteira...
Sinto que os laços que antes nos mantinha presos, vão se desatando e esse nós têm pouca força diante o destino. Tudo foi sempre maior que nós e eu pequena demais para abrigá-lo em mim. Te comparo a qualquer coisa que seja grandiosa, bonita e devastadora porque sabes que eu nunca poderia contê-lo. Ainda que eu fique sempre a esperá-lo, sei que já não voltas mais. O vento te levou por outros mares, e eu de todos os males, este foi o pior. Já não sou navegável, e, tampouco, sei nadar até ti. Nossas águas desaguam por caminhos diferentes. Hoje eu chovo e o céu chora, entre tanta água, a gente se encharca, mas tudo bem, o verão já vem trazendo o sol pra nos secar...
(Não sei por quanto tempo mais) Ainda sua,

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