segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sobre mortes e suicídios de nós

Não houve falta de amor. Se houve um pecado, talvez tenha sido pelo excesso dele, mas não por falta. Nos amamos demais de uma maneira desmedida, sem grandezas ou diques para nos conter. Você e eu não tivemos grandes alternativas; ou nos entregávamos de vez ao que sentíamos ou morríamos. Triste pensar que, no fim, qualquer uma das opções nos levou até a morte.

Eu sempre gritei de mais e você ficava no seu silêncio escutando. Eu calava e você falava baixinho e apressado para que eu escutasse tudo o que você precisava dizer. Não sabíamos nos comunicar verbalmente. Tentamos a linguagem dos olhos, das mãos, do abraço e dos patéticos corações. Nosso maior erro, meu amor. Foi aí que nos sentenciamos, foi aí que nos suicidamos.

Pulamos juntos do mesmo prédio e caímos diversas vezes no mesmo chão. Seguíamos pelas mesmas estradas sem nunca traçar nossos trajetos; não demos em lugar algum. Afogamos no mesmo mar, mas sempre houve alguma barco para nos salvar. Nos agredimos quando não conseguíamos lidar com tudo isso; ainda assim sobrevivemos.

Foi aquele maldito destino que nos afastou. Você encontrou seu trajeto e eu aprendi a não gritar. O silêncio foi perturbador, eu sei que sim. Ficar perdida sozinha não tem a mesma graça. Não tenho braços para me abrigar ou mãos para segurar as minhas quando o caminho se torna assustador, e tudo por aqui me assombra. Meu amor, nós dois finalmente encontramos a morte. Após tantas quedas, água nos pulmões e arranhões na pele; morremos pela ausência. Nos suicidamos da forma mais sutil e ameaçadora. Matamos o amor.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Quarto nº 30

Olho duas vezes antes de abrir a porta e entro no seu carro sem hesitar. Passo o cinto, mudo de música, te dou um olá e mexo no celular. Agora sem mesquinharia ou falso pudor, você me olha com indecência e diz que meu perfume é muito doce. Aumento o volume do rádio e finjo que você nunca disse nada. Você tenta falar sobre o que eu estava fazendo, digo que é tudo muito confuso e assim encerra-se o assunto.

Durante todo o caminho você derrama os seus problemas em meus ouvidos. Tento prestar atenção e te olho algumas vezes demonstrando interesse. Você me beija sem carinho e eu arranho suas costas em protesto. Pergunta o que quero comer e respondo que não tenho fome. Reclama da minha cara pouco satisfeita e diz que meu cabelo está legal.

Aquele quarto de beira de estrada é bem o nosso cenário. Nada de muito luxo, mas sabia enquadrar-se em nós muito bem. Você agride o meu corpo contra a parede e eu cravo os dentes no seu ombro sem remorso. Tudo bem. Encontramos um lugar mais seguro e confortável para a nossa disputa e você acaba ganhando no fim. Como sempre.

Eu me deito em seu peito, sem nada falar, e deixo que mais uma vez você fale incessantemente. Com algumas perguntas, você tenta me fazer sair do silêncio, meio monossilábica deixo tudo como está. É uma boa sensação quando você brinca com seus dedos na minha coluna. Parece até que nós dois sabemos ser sutis, pena que por pouco tempo. Eu brinco com os poucos cabelos do seu peito, e deslizo minha mão sentindo sua respiração, agora lenta e pacífica, enquanto me esqueço do que estou deixando para trás.

Eu queria poder falar de uma vez tudo que vem sempre me calando. Mas, nunca soube expor muito bem, acabaria mentindo. E combinamos de ser sinceros. Agora você se cala e eu volto falando por todo o caminho. Te conto sobre minha infância bem vivida, meu agitada vida-amorosa-adolescente, minha seletiva escolha de parceiros na atualidade. Você não fala muito enquanto dirige. Acho que algo deu errado.

Um beijo no alto da testa e um sorriso de despedida com a promessa de que está tudo bem. Penso duas vezes antes de te dar um tapa na cara e sair do carro. Seria mais prudente. Sem carinhos ou falso sentimentalismo. Típico de nós. Olho em teus olhos e fecho a cara, bato a porta do carro atrás de mim e caminho sem olhar para trás. Fique assim até o próximo quarto.

Dá série: Nossos quartos são campos de batalhas e não cenário de filme de amor. 

O último tango na cobertura.

Hoje é noite estrelada e sei que temos uma encontro na cobertura da torre mais alta da cidade. No meu vestido vermelho, te espero sentada no chão, ainda que eu esteja com roupa de gala. Bebo um uísque, fumo dois cigarros e não me importo se essa falta de compostura não combina com a ocasião. Até mesmo bailarinas descem das pontas, às vezes. Você chega de smoking, sapato engraxado e cabelo de lado, bem alinhado. Puxa-me em um só golpe para que eu caia em seus braços; você, o melhor de todos os precipícios dos quais pulei.

Sem música ou convite, fazemos o que resta a fazer: dançamos um tango argentino. O corpo fala por nós e os movimentos são poucos singelos. Hoje também é nossa última dança e, contudo, é a mais bela; seja por nos empenharmos por ser o fim, ou porque é triste. Sabemos que a tristeza é cenário para todos aquelas filmes que costumávamos ver, por isso são tão bons.

Eu vou cair do prédio mais alto da cidade, porque seus braços não vão mais me alcançar. Mas, por enquanto, só me resta dançar o último tango argentino.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Também não sei amar

Eu nunca aprendi a andar e tô sempre querendo correr. Caio sempre em seus braços e me arranho nos teus espinhos. Um ou outro ferimento eu me preocupo em colocar band-aids, naqueles que me estampam a pele toda, eu deixo em carne viva. Que ninguém nunca duvide que amar dói, mas que todas essas coisas podem se curar. E você nem se importa em me abraçar enquanto eu sangro esse nosso amor. E me machuco ainda mais quando passa as mãos por minha pele na tentativa de fazer as feridas estancar. Somos um desses casais que se ferem porque nenhum dos dois sabe lidar com sentimentos. Você me esmaga no teu peito de vendaval e eu o afogo com minhas crises de tempestades, e tudo bem se juntos arruinarmos tudo. Na manhã seguinte tem sempre promessa de calmaria.

Se esses nossos lampejos não cessarem, sabemos que continuaremos bem. Na ideia do comodismo, acostumamos até mesmo com o que nos faz mal. E nada me faz tão mal quanto você, assim como a fumaça do seu cigarro. Sei que nesse nosso caos alguma coisa vai se perdendo, eu só espero que não seja o que nos mantém assim.

Não sei bem o porquê, mas acho que é nessa nossa agressão que eu não me entendiei como tantas outras vezes. Não me canso, tô sempre em destruição e reconstrução. Tenho medo quando nos toleramos, quando tua mania de falar demais e a minha de escutar de menos não nos incomoda. Tenho medo quando você se deita e me abraça feliz porque não brigamos durante o dia. Quase que adoeço quando completamos mais um aniversário do nosso relacionamento, tudo vai bem demais... Não somos assim.

Você comete o crime de ignorar minhas mensagens e se atrasa para o jantar. Chega sem dizer muita coisa, e vai logo pedindo o prato principal. Queria os aperitivos acompanhados de um elogio, depois o prato do dia. Fica de cara fechada e eu escuto por muito tempo o seu silêncio. Te pergunto carinhosamente se tá tudo bem e me respondes secamente. Te faço um carinho por debaixo da mesa e olhas para o lado. Tudo bem, respiro mil vezes, tudo está bem. E então desabo. Desespero. Entro em pânico. Começo a rejeitá-lo, escondo-me no silêncio e na rispidez. Tu me adulas, me  trata bem, me chama de linda.

Escolhemos as palavras, agredimos um ao outro. Terminamos bem nossa noite. No descaso, no desespero. Meio bêbados e após o último cigarro, nos deitamos sem nos falar. Acordamos no meio da madrugada, sem nada dizer, me aconchego em teus braços e sei que lá reside a promessa de calmaria... Mesmo com tantos estragos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Do outro lado da cidade, do alto do prédio.

O cenário era quase o mesmo do outro apartamento, não fosse os papéis jogados ao chão com algumas palavras rabiscadas. Passara seus dias sentados na cadeira, sob café e nicotina, consumiu as últimas folhas de seu bloco dedicado a poesias. As palavras iam e vinham, e tudo que ele conseguia escrever se resumia a "amor, que coisa tola que tantos adoecem e enfraquecem."

Não saíra para ver o sol ou nenhum de seus amigos. Sua vida se resumia àquela dona do apartamento do outro lado da cidade e desde que ele se fora, tudo perdera o interesse. "Eu devo voltar. Não, preciso deixá-la feliz, preciso ser forte." Nenhum dos dois sabiam ser fortes separados.

"Está me sufocando toda essa sua necessidade de mim [..]. Engula tuas poesias ultrarromânticas e acabe de vez com esse pessimismo, a vida não acaba quando eu não estou contigo."


Ela estava errada, tinha de estar. Sim, a vida dele acabou desde que ele pegara suas coisas e deixara aquele apartamento. "Vida?" Viver não era aquilo. Manter-se vivo não era viver, isto era sobrevivência, sobrevida. Viver era sorrir por vê-la dormir serena. Viver era sentir o toque das mãos macias sobre o corpo dele. Viver era estar junto à ela.

20 andares. Estava no topo do edifício e seria uma queda rápida. Ele era poeta, não físico ou matemático, mas sabia que cairia com impressionante velocidade, e ainda sendo poeta e não médico, sabia que findaria sua vida. Não, ele não poderia entregar uma morte nas mãos delas só porque ela não o amava.

Ele não contestara nenhuma das palavras agressivas dela. Na verdade, em nada a atitude dela o surpreendeu. Sempre a considerou livre demais para que acabasse aprisionada à um poeta. Sabia que qualquer dia ela se cansaria dele, como tudo o mais em sua vida. Cansou-se da mobília, ele trocou; cansou-se do bairro em que morava, eles mudaram; cansou-se da padaria da esquina, passaram para àquela duas ruas abaixo; cansou-se dele. Ele a amava, como a fonte de toda a dor e amor que inspiravam seus poemas.

"Eu vou até ela. Vou dizer que não, eu não consigo. Sou fraco, eu amo, sim! E como todos que amam, eu sou tolo. Eu faço poesias porque não sei amar de outra forma, gosta da melancolia porque me trás conforto que é só o sorriso dela que me faz feliz, nada mais. Não, eu não posso. Fazer-me de infeliz é uma coisa, torná-la infeliz comigo é outra. Sem o sorriso que desperta a primavera, nem mesmo eu conseguiria ser feliz."

A dor o atingia de tempos em tempos. Se lembrava da face dura com que sua amante locutora lhe dizia todas aquelas palavras. Era impossível não se lembrar o quão bela ela ficava, mesmo irada. Toda aquela postura de dona-da-própria-vida, aquela certeza no olhar que só ela tinha. Nenhuma outra mulher sabia ser tão autêntica ou decidida como ela. Só por isso, só por aquelas palavras sinceras, que ele não insistira. Que ele não lutara. Ele gostava de tristeza, mas sabia que ela amava ser feliz. Não seria ele que a tornaria assim..Era melhor ele deixá-la.

20 andares. Tudo que tinha que fazer era se jogar. A vida se acabaria em poucos segundos. Chega de dor, chega de tristeza. Ele a amava ainda... "Uma semana. Se dentro de uma semana essa agonia não passar ou ela me aceita ou eu morro. Das duas opções, ambas são mortes. Morrerei de amor: com ela ou por ela."


       - Da série: Que se finde a vida quando acaba o amor.

sábado, 12 de novembro de 2011

O demônio das onze e dez.

A gente comemorava o natal na páscoa e trocávamos chocolates no natal. Eu vinha trazendo tempestades de areia e você não se abrigava em um lugar seguro, eu te engolia. Sei que você era fortaleza, mas nunca se preocupou em se proteger. Sei que você também nunca soube as datas comemorativas e por isso nunca se importunou de não ter decoração natalina na nossa casa em dezembro.

Você voltava pra casa trazendo pão quentinho e eu passava um café, comíamos juntos no fim de tarde esperando o sol começar a se por para assistirmos juntos. Eu lia as notícias do jornal do dia anterior e ríamos por ver que nada mudou, de fato. Eu ia deitar sempre depois que você já estava sonhando e o acordava sussurrando em seu ouvindo querendo atenção. Meio acordado,  passava as mãos no meu cabelo e respondia minhas perguntas-de-madrugada-sem-resposta. Depois te beijava indecentemente e pedia amor ardente.

Num dia frio, você pegou uma mala velha, ajuntou seus pertences e partiu. Sem grandes explicações, sem muitos porquês. Nada fiz para impedir e fiquei sentada no sofá da sala ouvindo seu vinil dos Beatles. Nunca passei tantas noites sem dormir, e mais uma pergunta se juntou àquelas outras de madrugada. Todas sem respostas. Acho que alguém te contou que não era natal, que na páscoa é que se troca chocolates. E bate no relógio onze e dez e sei que é essa a hora que me lembro de você. Não consigo dormir. Onze e dez e tenho perguntas sem responder. Onze e dez. Que demônio! O demônio das onze e dez...

domingo, 6 de novembro de 2011

Ninguém tem tanta tristeza na alma quanto ela. E que alma mais linda ela tem. Ela tem mania de sorrir bonito só porque chora demais ao adormecer. Ela come o canto dos dedos porque sente fome de si mesma. Ela vira e joga os cabelos de um lado para outro para não se sentir inerte. Ela quer ser feliz mas tudo que se alimenta é triste. Ela tem os olhos mais tristes que já vi, e nunca me senti tão perdido. Ela se bagunça toda porque não sabe o que fazer com tanta coisa que o mudo vai lhe dando. Ela tá sempre caindo, se esbarrando e tropeçando, e faz isso com tanta destreza que até parece  complemento para o seu charme. Porque ela não é delicada. Ela é feroz com qualquer coisa que se mostre amável. Porque ela não sabe amar. Fica escrevendo poesias bonitas de quem ama por séculos, mas nunca amou. Ela se mostra até onde quer e fica iludindo a todos que acreditam que ela é só aquilo. Mas, ela é mais, eu sei que é. Ela é mistério que nunca será desvendado e isso me seduz. Saber que nunca a conhecerei, será sempre a estranha que terei que conquistar todos os dias. Ela não quer ser amada, só quer um pouco de paz e companhia para domingos de chuva. Ela não quer ser amada, mas é tudo o que eu tenho feito: amá-la.

sábado, 5 de novembro de 2011

Trem que vai sem voltar.

Sei que ainda tenho uns mil destinos para te encontrar, e, em todos eles, vamos querer seguir juntos. Mas, meus passos são deveras curtos e os seus apressados. Eu nunca entendi essa sua ânsia de viver tudo de uma vez, mas gostaria de poder saciá-la. Tudo era sempre pouco e você queria mais. Eu me dava por satisfeita por qualquer coisa. Nessas nossas contradições, meu amor foi pequeno demais e você quis algo maior. Partiu no primeiro trem e eu ainda o espero na estação, mesmo que você nunca tenha feito o mesmo por mim.

Eu sempre soube que você não cabia em mim, mas joguei muita coisa fora para que aqui você fizesse morada. Eu ainda guardo aquela tua carteira de cigarro quase vazia e, às vezes, brinco com um cigarro por entre os dedos na tentativa de que eu fique com um pouco do seu cheiro. Não é fácil acostumar-se com sua falta, mas me preencho com aqueles nossos filmes que tanto gostávamos. O difícil mesmo é assistir qualquer coisa sem tua voz repetindo as frases da legenda, ou suas críticas ácidas à todas as atuações mal feitas.

Vez ou outra, alguém até puxa assunto comigo, enquanto vejo os trens partindo e chegando, sentada no banco da estação. Todos parecem tão superficiais, nenhum nunca me tocou no assunto sustentabilidade ou trabalho voluntário. E eles sorriem demais, sou acostumada com tua cara fechada. Digo que tenho que ir, que quem eu esperava deve ter errado o horário e perdido o trem, que volto outro dia. Eu parto assim como você fez, sem muitas explicações ou apego.

Eu continuou com minha vidinha-de-interior. Levanto às seis, cumpro com as obrigações, desperdiço conversas na porta de rua, e leio alguns livros antes de dormir. Às vezes eu choro, um choro calado e abafado pelo travesseiro, mas choro. Eu queria ter coragem de pegar o próximo trem e ir de desencontro com o destino, ao invés de ficar aqui esperando-o voltar. Sou medrosa e me acovardo com o barulho dos trilhos. Volto pra casa e desfaço as malas e programo o despertador para tocar um pouco mais tarde, como forma de rebeldia.

Ainda aprendo a caminhar mais depressa, ou quem sabe, me perder sem medo. Até lá, tomo meu café sempre no mesmo horário, e continuo a brincar com seu cigarro. Quem sabe até não fumo um, pra sentir o gosto que costumava ficar na tua boca....

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cartas para Charles IV



Charles,

São dias como esse em que eu quase desisto de te esquecer. O dia já amanhece chorando e as ruas alagadas se afogam junto com meu coração. Escolho outra vez a solidão e me sufoco de saudades suas. Até o silêncio fica mais sólido para que na insanidade eu talvez escute sua voz. Saber que qualquer estranho pode te encontrar na rua me faz querer sair procurando seu olhar. Andar por esquinas que não dão em lugar nenhum e me perder, porque qualquer lugar tem menos a sua presença que dentro de mim.

Outubro mal se fora e novembro se instalara por aqui com devassidão. Seja pelo cheiro da chuva ou pelo barulho dos trovões, essa tempestade me envolve e eu chovo junto com o céu. Tudo aqui é destruição, a começar por mim, e em meio a todo este caos, eu aceito que tudo vá se perdendo, inclusive as lembranças de ti.

De todas as coisas que eu podia sentir falta, eu sinto falta da sua perturbação. Sei que almas turbulentas como a sua só procuram repouso em marés de calmaria. E eu vinha com minhas tempestades e nós dois juntos éramos furacão. Nenhum amor que se preze se estabiliza em destroços como nós costumávamos ser, mas sempre encontrávamos tesouros mesmo frente à nossa destruição e achei que com isso construiríamos nossa fortuna.

Charles, não caibo mais em tanta saudade. Os ponteiros do relógio repetem sua trajetória dia após dia e eu faço o mesmo. Nada muda. Todo dia me levantou e me deito na cama vazia, e interprete isso nos dois sentidos dessa ambiguidade. Não sei se esse vazio sou eu ou o mundo ao qual tenho pertencido, mas tudo tem sido menos completo desde que se fora.

Não sei quantas cartas terei eu que escrever até que eu arranque de mim essa mania de querer falar contigo. São cartas que não chegam ao destinatário e ainda assim persisto em escrever. Charles, quando foi que nos afogamos em tanto sentimento? Achava que tínhamos aquele tipo de amor que duraria para a vida inteira...

Sinto que os laços que antes nos mantinha presos, vão se desatando e esse nós têm pouca força diante o destino. Tudo foi sempre maior que nós e eu pequena demais para abrigá-lo em mim. Te comparo a qualquer coisa que seja grandiosa, bonita e devastadora porque sabes que eu nunca poderia contê-lo. Ainda que eu fique sempre a esperá-lo, sei que já não voltas mais. O vento te levou por outros mares, e eu de todos os males, este foi o pior. Já não sou navegável, e, tampouco, sei nadar até ti. Nossas águas desaguam por caminhos diferentes. Hoje eu chovo e o céu chora, entre tanta água, a gente se encharca, mas tudo bem, o verão já vem trazendo o sol pra nos secar...

(Não sei por quanto tempo mais) Ainda sua,