Hoje é uma dessas nossas datas e eu não quero me lembrar. Você sempre se esqueceu e eu tinha que ficar te lembrando, se você fazia isso para exercitar a minha memória, ela ainda trabalha bem. Sei de data por data até aquelas em que não nos víamos. Eu só não me lembro bem daqueles borrões de dias em que nos separamos, cada qual para um lado mais machucado que o outro e cheios de orgulho.
Eu acho que você não se lembra de muito, mas a questão do tempo sempre foi subjetiva para nós. Nosso caso sempre pareceu um daqueles filmes e livros que possuem uma narrativa não linear e cheio de introspeção psicológica. As datas às vezes se fundem e fica difícil separar todas as datas da nossa reconciliação. A gente ia e voltava tantas vezes que o tempo se perdeu entre nós.
Eu até bateria na sua porta hoje e o chamaria para conversar, mas a gente não sabe ser amigos. Temos muito interesse um no outro para conservar a amizade. Teu corpo todo me chama e o meu não resiste ao seu. Eu tô com um amontoado de coisas suas aqui no meu quarto, esperando a saudade ser maior que tudo para usar como desculpa para te ver. Porque você sabe, se a gente se ver, a gente não se resiste. Eu e você somos um daqueles casos típicos de amor físico. Porque emocionalmente a gente se destrói.
Outro dia encontrei seu disco do Chico e fiquei escutando "olhos nos olhos", imaginei você na minha frente e guardei todo o ódio que consegui juntar para quando eu o encontrar. Vou ter tanto desprezo por você até lá, que eu bem sei que vai te doer um pouco. Mas, sabe, outro dia encontrei um velho guardanapo seu em que você me escreveu algumas promessas e eu bem quis te ver. Porque o amor também ficou por aqui, e tal como o ódio eu o guardei todo para você.
Você e eu nunca soubemos nos caber em conceitos, nem mesmo em um relacionamento qualquer. Criamos para nós todos aqueles apelidos ofensivos e nos protegíamos no romantismo. Se estivéssemos em público, a distância entre nós se fazia tão grande que eu chegava até sentir saudades suas. Mas, no íntimo eu e você éramos nós e cabíamos um no outro. Eu ainda sinto o peso do seu corpo sobre o meu naquela noite em que rolamos juntos vendo um céu estrelado. Ainda sinto a chuva cair sobre nós, naquela nossa corrida desesperada por um abrigo enquanto o que queríamos mesmo era nos molhar.
A gente teve o tipo e amor que não se repete. Soube disso no instante em que o vi com outra pessoa. Vocês andavam de mãos dadas e soube que ela garota nunca iria ter a nossa intensidade. Tive a confirmação disso uma semana atrás quando outra pessoa me beijou. Eu e ele tivemos muita proximidade física mas nossas almas pouco conversava. O nosso tipo de amor é aquele que nos lembraremos daqui há anos como a parte mais gostosa e dolorida de toda a nossa adolescência. O nosso tipo de amor é aquele que a gente procura a vida inteira e desperdiça. O tipo de amor que vai sempre ser só nosso.
Se foi o nosso amor mais bonito eu ainda não sei. Mas, a gente soube pertencer. A liberdade e o aprisionamento que nossa história me deu será pra sempre minha melhor lembrança. Liberdade para rir de quando você era ridiculosamente romântico, mas aprisionada ao seu sentimento e as suas palavras sentimentais. Eu espero que isso jamais se repita, é nosso, só nosso e já se expirou. A gente sempre viveu tudo isso de forma tão intensa que gastou um amor que deveria ser pra vida inteira. Mas, se bater saudade, eu bem que tô querendo aquele livro da Clarice que ficou com você...
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