Charles,
Outubro chegou me trazendo chuva e ainda mais solidão, mas de você, nem um pouco. Começo a pensar que não há mais descaminhos que te tragam até mim. As noites tem sido longas e os dias breves, talvez seja só minha negação à luz, mas já não há brilho que afaste a escuridão. Até o céu tem chorado sua falta; em dias de chuva com este, deixo que escorra pela janela todas as lágrimas que de mim já não caem.
Se teu cheiro foi-se com o tempo, as pétalas foram levadas pelo vento. De tão secas e carentes, caíram uma a uma e no fim só restaram os espinhos que me perfuram as mãos. Nunca vi tanta beleza na natureza morta, agora posso entender a graça da outono. Mas, para o meu desgosto, estamos na primavera; e árvores florindo só me lembram que até pétalas retornam para os galhos quando caem, mas tu não voltastes. Apego-me aos espinhos com a esperança de que eles não mais floresçam, para assim fazer companhia para tua ausência, para enfeitar o cenário da minha solidão.
Entrego-me lentamente a impulsos de morte e nem me preocupo em contar quantas batidas de coração ainda me resta. Dizer que sinto sua falta é eufemismo para toda a agonia que em mim tem habitado, e afeta-me pensar que já me habituei. Derramo meu corpo na cama vazia e me preencho de solidão. Expando meus braços e pernas na tentativa de querer ser maior. Charles, nunca me senti tão insuficiente. Nem mesmo com todas as cobertas e travesseiros consigo ocupar o teu lado da cama.
Pela triste melodia que os vizinhos tocam, atrevo a pensar que seja canção de compaixão. Que se compadecem pela melancolia que todos os dias me visita. E de toda a solidão que me condenastes, tenho feito dela uma melhor companhia. Tristeza e desespero tem sido temperos para meus dias, e a saudade, bem, a saudade é o principal alimento.
Charles, não sei como te deixar ir ainda sendo tão meu, e eu, sendo tão tua. Tu sabes se deixar por aqui, se abandonar aos poucos. Tomara que tua falta desista e tu voltes antes do verão chegar. Pois, tu sabes que não confio em chuvas de verões, porque não se chove sem frio, como não se ama sem se machucar. E não confio em nada dessas coisas, contudo é só o que acredito. Desmancho em sentimentos incompreensíveis me abandono em qualquer precipício. Sigo fingindo que é pra acostumar a não te ter aqui. Charles, volte antes que sua falta se solidifique e eu desaprenda a sonhar contigo.
Ainda sua,

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