segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cartas para Charles III



Charles,

Outubro chegou me trazendo chuva e ainda mais solidão, mas de você, nem um pouco. Começo a pensar que não há mais descaminhos que te tragam até mim. As noites tem sido longas e os dias breves, talvez seja só minha negação à luz, mas já não há brilho que afaste a escuridão.  Até o céu tem chorado sua falta; em dias de chuva com este, deixo que escorra pela janela todas as lágrimas que de mim já não caem.

Setembro passou sem grandes novidades. Desisti de usar tua camisa, visto que, seu perfume enfim foi-se com o tempo. Pudera as lembranças serem levadas assim... De tudo de ti que aqui ainda resta, apego-me a manias que talvez você nem mais as tenha. Mordo os lábios, destampo a caneta mil vezes, rasgos e jogo no chão tentativas fracassadas de poemas, e bebo café. Talvez eu até derrame um pouco neste papel que é pra tu provar do gosto que tem estado em minha boca. Café amargo. Amargura.

Se teu cheiro foi-se com o tempo, as pétalas foram levadas pelo vento. De tão secas e carentes, caíram uma a uma e no fim só restaram os espinhos que me perfuram as mãos. Nunca vi tanta beleza na natureza morta, agora posso entender a graça da outono. Mas, para o meu desgosto, estamos na primavera; e árvores florindo só me lembram que até pétalas retornam para os galhos quando caem, mas tu não voltastes. Apego-me aos espinhos com a esperança de que eles não mais floresçam, para assim fazer companhia para tua ausência, para enfeitar o cenário da minha solidão.

Entrego-me lentamente a impulsos de morte e nem me preocupo em contar quantas batidas de coração ainda me resta. Dizer que sinto sua falta é eufemismo para toda a agonia que em mim tem habitado, e afeta-me pensar que já me habituei. Derramo meu corpo na cama vazia e me preencho de solidão. Expando meus braços e pernas na tentativa de querer ser maior. Charles, nunca me senti tão insuficiente. Nem mesmo com todas as cobertas e travesseiros consigo ocupar o teu lado da cama.

Pela triste melodia que os vizinhos tocam, atrevo a pensar que seja canção de compaixão. Que se compadecem pela melancolia que todos os dias me visita. E de toda a solidão que me condenastes, tenho feito dela uma melhor companhia. Tristeza e desespero tem sido temperos para meus dias, e a saudade, bem, a saudade é o principal alimento.

Charles, não sei como te deixar ir ainda sendo tão meu, e eu, sendo tão tua. Tu sabes se deixar por aqui, se abandonar aos poucos. Tomara que tua falta desista e tu voltes antes do verão chegar. Pois, tu sabes que não confio em chuvas de verões, porque não se chove sem frio, como não se ama sem se machucar. E não confio em nada dessas coisas, contudo é só o que acredito. Desmancho em sentimentos incompreensíveis me abandono em qualquer precipício. Sigo fingindo que é pra acostumar a não te ter aqui. Charles, volte antes que sua falta se solidifique e eu desaprenda a sonhar contigo.

Ainda sua,

Nenhum comentário:

Postar um comentário