Mas, tu não voltastes, Charles.
A espera de ti me domina e padeço em qualquer lugar. Com fios tênues de esperança, entrego-me à ilusão de que talvez estejas a caminho. Charles, não permitas que eu desista, não mais. Desistência sempre foi um mal de que sofro, mas nunca perseverei tanto em uma única coisa. Na verdade são duas coisas, mas ambas se convergem em ti. Uma consiste em esperá-lo e a outra em não esquecê-lo.
Dias de sol já não importam e toda a melancolia do inverno me agrada. Já não tiro tua camisa que é para não perder teu cheiro como tudo o mais que se perdeu. Mas, meu cheiro contrastado com o teu já não tem o mesmo sabor. Nossos corpos juntos exalam muito mais perfume do que meu corpo preso a tua camisa. No passar do tempo, meu cheiro agarrou-se ao seu e tem tornado mais difícil sentir teu aroma. E ainda há tanto de ti aqui. Há tantas perguntas que tenho para te fazer, tanto do teu corpo para conhecer, tanto de ti para amar.
Com tua falta ainda mais sólida, os vizinhos já não me importunam. Esqueceram-se ou quem sabe desistiram de mim. Pensei até em ser mais agradável, mas não me importo, que eu seja esquecida uma vez que tu pareces ter-me esquecido. Esquecida como um livro ruim, ainda sem lê-lo por completo, no canto de um estante empoeirada.
Setembro veio devastador, Charles. A demora de agosto com a qual falávamos passou rápido, mas monótono. E setembro veio sem tua chegada. Sorte a minha que ainda faltam muitos dias para que ele acabe, e quem sabe, no início de outubro o tenha aqui.
Mas, Charles, tu não voltastes ainda. Começo a definhar ao pensar que talvez não venhas mais. As pétalas caem uma a uma e provavelmente em pouco tempo só restará os espinhos. Vês? Até a beleza foi-se contigo. E nem quero falar da felicidade... Tudo anda vazio e com saudade de ti. Com tanta água que jorra dos meus olhos eu até poderia regar as flores, mas desta água salgada e carregada de dor nem mesmo plantas querem beber.
Charles, o sol não mais se levanta neste horizonte, e por isso, estou sem direção. Pergunto-me se há alguma estrada que me levará até ti ou se em alguma delas iremos nos encontrar. Que exista espaço para nós dois em algum desses lugares. O destino que insiste em nos afastar é o mesmo que um dia nos juntou...quanta injustiça, não?
Parece inalcançável como sempre, mas persisto. Persisto na vaga ideia de que tua demora se deve a problemas aéreos, rodoviários, ferroviários ou nesses transportes intermodais. Não é culpa tua, eu entendo. Charles, tô com tua camisa, livros, uma xícara de café; esperando só tu chegar para afirmar de que tenho tudo que preciso. Então venhas, venhas antes que minha mania de desistência seja maior do que tudo que sinta por ti. Ainda que o que eu sinta por ti seja grandioso e dure uns 100 anos.
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