No penúltimo andar de um prédio, em um apartamento quase inabitável, uma mulher evita a janela. Pela sala há roupas jogadas, sapatos largados e um corpo que se estira pelo sofá. Ao alcance de sua mão, o cinzeiro, e entre seus dedos um cigarro quase no fim. O corpo é o daqula que evita a janela. E tudo o mais também é dela. Até a vida que aos poucos vai se esvaindo de seus olhos.
Pela lembrança quase intocada, dá-se os últimos suspiros daquele amor que há alguns dias pegou as malas e disse adeus. E desde esses "alguns dias" restringiu suas atividades vitais àquele sofá já delineado com teu corpo, um pouco de café - que é para não dormir e não se esquecer da dor - e ao cigarro na boca. Falta tudo que nunca a preencheu, e ela sobrevive da tortura que ela mesma a infringe. Dá saudade do beijo e põe cigarro aceso na boca. Dá saudade do calor de outro corpo e bebe café frio.
"Não deveria ter deixado-o partir". Não deveria mesmo, pois tudo veio desabando com tal velocidade que decidiu por desabar naquele sofá. A porta destrancada denuncia a vontade de que ele volte. E tudo o mais que está fora do lugar, também. "Amor, que droga é essa?"; falar de dor agora é fácil, pois esta toca-lhe a pele e adentro ao seu âmago. E dói.
Evitar a janela já não é tão fácil. São 24 andares e se for até o terraço contará mais alguns. Mas, jurou nunca ser fraca o suficiente ao ponto de findar sua vida por amor. Era o que fazia resistir aquela tentação. "Não deveria ter deixado-o ir". "eu vou". "Não, não, eu resisto".
"Você, com tuas manias estúpidas, me impede de ser feliz. Teu ciúme que me persegue a cada amanhecer, essa tua necessidade de apego e toda tua carência. Seja homem e faça o papel de um. Pare de mendigar por afeto, pare de me sufocar com cinco ligações matutinas, três vespertinas e umas duas noturnas até eu chegar. Não sejas tão sentimental, você não sabe que mulheres como eu não suportam isso? Pegue esses teus papéis, poesias não me comovem, histórias de amor também não. Amor, que coisa tola que tantos adoecem e tantos se enfraquecem. Não quero que diga que me ame sempre que eu acordar, só acorde e pronto. Está me sufocando toda essa sua necessidade de mim, me deixe ser leve, me deixe voar e respirar. Engula tuas poesias ultrarromânticas e acabe de vez com esse pessimismo, a vida não acaba quando eu não estou contigo."
Aquelas palavras que saíram direto da sua boca para esbofetar teu amante interlocutor arrancava-lhe a vida agora. Que palavras tolas, vinda de uma tola, de uma fraca. Que tolice de amor que agora a enfraquecia. Ele pegara apenas uma mala e ajuntou algumas poucas coisas e saíra. Fizera papel de homem não procurando-a. E agora lhe perseguia a imagem daquela face chorosa que nem implorou. Ele aceitava ser infeliz, mas torná-la infeliz jamais aceitaria. E por isso partiu. E como ela queria a fraqueza do amor, como queria aquele sufoco, aquela paixão desmedida, aquelas ligações - seu telefone tornara-se mudo desde então - queria tudo de volta. Queria era a carência dele e todos os "eu te amo" matinais. Mas, ele que de tão fraco de amor por ela, estava sendo forte para não alimentar a infelicidade dela. Mal sabia ele que ela planejava cair daquela janela, mas não queria acabar com a dor, porque aquela dor iria carregar sempre por culpar-se por perder o que mais a preencheu.
- Da série: Que se finde a vida quando acaba o amor
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