segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Cartas para Charles I




Charles,
    Tu não voltastes. Nem no dia seguinte, na semana que passou, no mês que procedeu e nem duas estações depois. Tu deveria ter voltado, mas não o fez. Procurei ignorar à princípio, encher-me com conversinhas de porta de rua e dar jantares para toda a família, mas tua ausência foi maior. Faltou você aqui, como faltou pó de café no pote, na garrafa e na xícara de café da manhã. Faltou café quente, você na cama, no sofá e dando beijos no portão.

    Tu ficastes de voltar, mas não o fizestes. Repito por ênfase e para culpá-lo. Para preencher-me com os hiatos que deixastes na minha vida, comecei a fazer análises críticas sobre os ensaios do nosso relacionamento. Julguei pelos teus defeitos que seria fácil esquecê-lo, comecei a apegar-me à eles, e, no fim, transformaram-se em suas melhores qualidade.
    Ontem encontrei uma blusa sua, suja e esnobando teu cheiro, e decidi que desisto. Charles, eu sinto sua falta. Decidi que sinto sua falta como sentirás da tua camisa preferida que está agora em meu corpo que sua frio em minha pele nua. Decidi que te amo, e que para este mal talvez não há cura.
    Charles, tua falta me faz regressar aos pesadelos de abandono. Eles se curaram enquanto estivestes aqui, e se intensificaram desde que se foi. Ah, Charles, se soubesses que a conversa de porta de rua aumentou desde que me deixou. Os vizinhos reclamam tua falta, se atreveram a dizer que fiquei pouco humorada desde a última vez que me viram com você.
    Mas, Charles, a gente se pertencia. Fosse pelo destino ou por vontade, a gente se pertencia. E sabíamos nos pertencer, cada qual pertencente mais ao outro do que a si próprio. E a gente se perdeu. Seja novamente por destino ou vontade - tua é claro -  a gente se perdeu. Talvez estejamos perdidos ainda, e nos encontraremos juntos.
Pelo desespero com que se foi, atrevo-me a desejar que ainda há de voltar. Tu voltas, não voltas? Pela tua camisa ou pra um último café. Volta, que é pra eu sorrir, e quem sabe, não te faça ficar. Teu livro ainda está naquela página marcada, tua toalha dependura no box do banheiro, e teu cheiro está em toda casa - no meu travesseiro, no lençol e em cada amanhecer.
    Charles, sei que não é certo pensar em ti tanto assim. Sei que essa saudade ainda me afogará com todas as lágrimas que vem se derramando pela tua falta. Mas, Charles, meu querido Charles, é maior do que eu. Eu te amo, te amo, e é tanto, que tanto já perdeu a intensidade. Charles, nos pertencemos, nos queremos, nos somos. Eu te pertenço, eu te quero e sou toda tu. Se não for um crime muito grande, que esta carta chegue com um cheiro meu, e que desperte em ti a saudade de mim, e que você a atenda e venha logo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário