E quando você disse "há tanto tempo que sonho com teu sorriso, menina", com teus olhos alinhados aos meus, acreditei que isso fosse uma promessa. Uma amostra grátis do teu amor e do teu sentimento que me doparia com doses cada vez mais exorbitantes por muitos e muitos anos, até eu me curar de mim. Pensava ter mais duração o efeito deste teu fármaco, mas no fim, bem no fim, como todo remédio, se em excesso, vira droga. Fostes esta droga, droga de mim, droga dentro de mim, droga de amor.
Há tempos vim ensaiando essa verdade que me tapa a boca, hoje por alguém motivo, decidi que talvez eu devesse ter coragem de te falar. Tenho guardado em uma papel rabiscado por outras coisas, e de forma codificada, cada data ou dia especial, mas por preguiça ou medo de retirá-lo da caixa de lembranças, decidi colocar de cabeça mesmo tudo que lembro. Não confie em nenhuma delas, como eu mesma não confio em você agora.
Estranha-me lembrar das nossa conversas, como vivo insistindo, nunca fui de prestar muita atenção ao que dizia, você falava muito. Mas, esforçando-me para lembrar, uma me veio como relâmpago na memória, bem espontânea. Foi um caso cotidiano, que envolvia uma amiga tua, um sobrenome, uma atendente e o nome da minha loja preferida. Não sei porque me lembrei justamente disto, talvez no dia não estivesse tentando gravar teu cheiro, ou roubar-lhe um beijo. Sempre fiquei meio alerta nos momentos em que passamos juntos. Acho que entrava no automático, vagamente consciente de que você falava, mas sei de cor todas as cores que compunham o reflexo do céu no teu olhar. Sei também o gosto do teu cheiro, e o perfume do teu beijo, então acho que isso serve de desculpa.
Para não se sentir ruim, vou citar algumas datas, para provar que às vezes eu prestava atenção. Lembro-me da conversa do dia 21/01, de uma lágrima solteira que me escorreu pelo olho esquerdo, e de tua mochila nas costas quando me abraçou na porta de casa. Lembro-me da madrugada de um mês para o outro, não sei se janeiro/fevereiro ou fevereiro/março, mas saí de casa em um dia e quando voltei tinha ganhado o primeiro beijo teu e era outro mês. Fostes uma desculpa tão ridícula que arranjastes para me seguir...Lembro-me do dia 18/03, eu, você, uma cadeira e um beijo quente. Dia 19/04, um passeio de carro sozinhos, última vez meu.. Daí, dia 21/04 fostes adeus. Mas, é claro que estamos falando de alguns anos atrás e nossa história não terminou há tanto tempo. Daí, me lembro do dia 12/06, uma surpresa, uma declaração, uma caminhada e muitas meninas me invejaram pelo que fizestes. 14/06, uma palco, uma plateia, uma conquista. 19/06, um banco, minha cabeça em teus ombros, tua blusa preta que até hoje invejo, e depois de tanto tempo e descasos nossos lábios se encontraram. Sem datas agoras, lembro de beijos encostados na parede, de beijo de chocolate e beijo de cabeça para baixo. Lembro de um tapa na tua cara, só pra te provocar, só para me puxar em um beijo mais quente. Lembro-me de ajoelhar aos teus pés, e mendigar por teus lábios, quanto tempo duravam aqueles nossos beijos? Lembro dos teus braços envoltos sobre mim, lembro de ter um sorriso teu no meu rosto, lembro de um beijo-sorriso. Lembro de uma tarde atoa, rolando no chão juntos, ultrapassando alguns limites, tornando nossos corpos íntimos.
Tem muitas outras conversas de corredores, de computador e trecho de músicas que poderia citar aqui. De filmes não visto, de risos esganiçados, de beijos, muitos beijos. Que boca boa tu tens. Que sabor bom, um beijo teu. Saudades de caminhar ao lado do teu allstar, saudade de me receberes na porta com um sorriso meio falho, e um 'e aí?' como cumprimento. Saudades dos nossos trocadilhos, das nossas poesias, conversas de dia a dia, beijos de bom dia. Saudade demais. Acho que fiquei com as saudades, tu ficastes com meu coração.
Mas vim enrolando até, excedendo nas palavras e detalhes, entregando-lhe memórias que poderás usar contra mim, só porque não queria chegar até aqui. Não quero mais me contorcer inteira na cama ao sonhar contigo, não quero passar o dia inteiro com teu gosto porque à noite me veio ao sonho, sorrateiro e bandido como sempre fez. Já não me caibo de saudades e lembranças tuas, e hoje é uma dessas datas nossas. Eu já não quero ter que caminhar fingindo por aí que teus passos não me fazem mais companhia. Não quero, tens me incomodado. Quanto tempo durou esta história mesmo? Não importa, tenho colocado reticências e prolongado este período por tempo demais.
A verdade é que tu nunca fostes tudo o que eu quis. Nem era quem me completava. Tu sempre esteves transbordando dentro de mim, me excedendo, me derramando. Sempre fostes de ideias leves, que qualquer vendaval poderia tirar da tua cabeça, enquanto outras pessoas lhe davam novas. Na verdade, tu roubava o jeito das pessoas. Tá aí, tu me roubastes. Então devolva-me agora, porque não vai continuar me arrastando pelo tempo assim. Tu esgotou minha capacidade de tolerar idiotas, ninguém é interessante quando comparo a ti, simplesmente porque ninguém é você. Vontade louca de te xingar na cara, gritar, te bater, para me controlar e me roubar um beijo.
Fiquei durante muito tempo pensando em te procurar, mas foi tu que me deixastes para trás, seguistes caminho e não sei aonde estás agora. Eu continuo aqui, com tudo o que foi nosso. Então sabes aonde me encontrar. Não quero viver para sempre com tua sombra em mim, nem queria viver sem ti, mas já me acostumei. Confesso que queria que voltasse, não sei se é para te deixar, ou deixá-lo ficar na minha vida. Acho que o deixaria ficar, não sei te dizer não.
Se prestastes atenção por tempo suficiente meus olhos me trairão e te contaram tudo, mas prometo fechá-los. Eu vim até aqui, neste texto enorme só para te dar preguiça de ler e não saber tudo que queria te dizer, mas eu queria mesmo te dizer que ainda gosto demais de você para gostar de mim. Ainda sinto uma saudade sufocante e dolorida do nosso tempo, de você. Mas, tudo o que eu queria dizer é que não quero mais sentir isso. Não quero viver pra sempre sufocada pela memória do que passamos, pela dor que vivi, pela minha covardia de nunca ter te procurado. Bem, eu não te quero mais. Não quero mais sentir amor nem saudade. Não quero. Queria dar um adeus, mas tenho medo de querer ficar. Fique bem, cuide de sua felicidade, e me deixe de uma vez. Me deixe ir e fazer o mesmo por mim.
E isto aqui, não é uma carta para você.
Nenhum comentário:
Postar um comentário