sábado, 25 de junho de 2011

Saiu


Hoje saí limpa. Despi-me de toda a amargura e entrei no chuveiro. Deixei que a água escorresse levando pelo ralo todo o desafeto, a tristeza, as lágrimas, o que vinha me sujando. Fiquei com a cabeça debaixo d'água em um estado de não-pensar, de não-agir. Lavei a alma e tudo que vinha matando-a, tudo que vinha decompondo-a. Saí do chuveiro mais leve, mais viva. Vesti um vestido florido, pés descalços, e um livro debaixo do braço. Fui de encontro com a natureza, sentir o vento na cara, o sol na pele, a paz na alma. Corri para sentir a liberdade, a leveza, para voar. Deixa que tudo se vá nas asas do vento, deixa que a tristeza escorra pela face e volte em forma de sorriso. Deixa que tudo tem fim e que é preciso aceitar. Saí desapegada de objetos, de conceitos, de tempo, de maus sentimentos. Deixei o peito luxuriar-se com o que é puro, respirou expandindo-se, parecia não se conter. Rolei na grama e continuei limpa, clara. Sussurrei deitada no chão e encarando o sol.  Hoje saí limpa, e limpou-se em mim todas as mágoas.

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