Conversavam sem se encarar, ela olhava o céu, ele o chão, embora, entre um ladrilho e outro, voltava o olhar para o rosto dela, provavelmente entender o que se passava ali. Eram amigos há anos, mas naquele momento, pareciam se conhecer pela primeira vez...
Ele: ... Ver-te passando por mim como se não me visse, e o que doeu é que eu sabia que tinha me visto, chegou-me a olhar, havia desprezo em teus olhos....
Ela continuava sem encará-lo, embora agora, tentava, com certa dificuldade, prestar atenção. Havia algum tempo que ele estava falando, ela não ouvira uma palavra dele, até aquele momento.
Ele: ...e pensar que tudo estaria perdido, TUDO. Perder todos os risos que demos, seria injusto. Eu quero que entenda, ontem, quando a vi passar, compreendi que deixaste há muito tempo de ser minha amiga. Bem, é que eu não a vejo mais como amiga, se entende o que quero dizer....
Ela prendeu a respiração. Estava alerta a qualquer som, qualquer leve balançar das folhas, a cada respiração que se exalava da pessoa ao seu lado. Seu corpo estava rígido com as últimas palavras... será que ela havia entendido direito? Tentou reorganizar os pensamentos, tentou saber se era real...o que se comprovou com um sopro de vento que afastou seu cabelo de seus olhos. Não podia ser - era só o que pensava - depois de todos aqueles anos?
Diante do silêncio, ele prosseguiu...
Ele: Eu preciso que entenda, que eu não quero só ser teu amigo, eu não quero te perder, eu preciso de você. Prometo ....
Ao ouvir prometo, soube que apesar de real, a promessa já se desfazia ali. Cumprir promessas não era com ele, talvez fosse isso que o tornava encantador.
Ele:.. prometo não te magoar outra vez. Sei que tens razões para não confiar, nem mesmo querer ser meu amigo, mas eu prometo de fazer feliz, prometo que jamais quebrarei esta promessa....
Alguma coisa, que saíra de seus olhos, rolou pela sua face e fez morada no seu peito. Molhou a sua blusa branca, respirou fundo, limpou os olhos, embora continuassem embaçados, o encarou pela primeira vez desde o início da conversa.
Ela: Agora? Engraçado - pura ironia, não havia nada de humor naquilo. - há tantos anos que eu... eu.... eu gosto de você, e jamais notou isso... Tentei de tantas maneiras te esquecer, me reconstruir, mas nunca consegui, era só você no meu pensamento, eu só queria você. E justo agora, que eu estava bem, não perfeita, mas bem, você me diz isto....
Ele: Você gosta de mim? Porque nunca me disse?
Ela: Precisava? Se desistir de mim mesma, se acolher-te nos meus braços por uma noite inteira enquanto lamentava-se por outra, se estar sempre pronta para o que quisesse, se isso tudo não fosse indicativos de que gostava de você, ou você era cego, ou idiota.
Ele: Poxa, você gosta de mim.
Ele ria deslumbrado com a ideia, ela se perguntava se ele havia ouvido a dor na sua voz ou se, ao menos, havia ouvido alguma palavra além de que ela gostava dele.
O silêncio retornou, eles se encaravam. Ele a levou de volta à porta da sua casa, chegando lá, reafirmou sua promessa.
Abraçaram-se como nunca antes. Como se fossem dois amantes separados pelo destino, e que enfim, se reencontraram.
Ela aceitou a promessa, mesmo sabendo que, jamais se cumpriria. Queria dizer que não dava mais, que não podia, que ele deveria sofrer esquecendo-a, que teria que se contentar com sua amizade. Sabia que aquela promessa já estava quebrada antes mesmo de se concretizar. Mas o que poderia fazer se ela não gostava dele, se ela na verdade, o amava?
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