Ela estava vindo. Caminhava como sempre, embora com passos lentos, estes revelavam a sua ânsia de chegar aonde queria, contudo eram desajeitados. Ele a esperava sorrindo, como sempre irritavelmente paciente. Ergueu um pouco o olhar, sorrindo meio de lado, um sorriso tímido talvez. Ela não sorriu, estava a poucos passos dele e ainda assim caminhava seriamente, concentrada, como se caminhar fosse um exercício perigoso.A um passo de distância porém, ela ergueu o olhar, encontrou os dele analisando-a, esperando um sorriso de retribuição, e este veio sem esforço, veio como as ondas avançam sobre a areia, veio com sinceridade, com pressa de se exibir no rosto dela. Se ela soubesse o poder daquele sorriso...
Era um sorriso infantil, aquele que a criança abre quando gargalha, sem o som. Era inocente também, mas seus olhos eram indecentes, e o conjunto da sua expressão tornaria qualquer um presa fácil. De abrupto, o abraçou, sem nada falar. Era assim mesmo, não pedia, não falava, apenas fazia tudo no ímpeto de ser. Se tinha uma característica que o cativara era essa, a de ser impetuosa, petulante.
Ela vivia sempre em seu mundo, sendo por vezes expectadora dele, mas algumas raras vezes convidava alguém para entrar. Acostumada ao seu mundo, qualquer outro perdia-se nele. Ela esquecia-se de explicar, de interagir com o outro, com o exterior, apenas continuava com seu show... seu show particular. Ele gostava disso, de se ver perdido, de se ver entregue, de ser o expectador, de sempre se surpreender com o roteiro. Por isso era petulante, agia no ímpeto, agia pois em seu mundo, era tudo esclarecido, porque para os outros não seria então?
Ele lembrava-se do primeiro beijo, em um dia olhando o céu distraidamente, perguntou se ele se perguntava qual era o gosto das nuvens. Enquanto ele ainda digeria a pergunta, ela entrou em seus olhos e avançou em seus lábios. Simplesmente o beijou. E quando terminou, respondeu sua própria pergunta, como se o beijo fizesse parte da resposta ou talvez nem tivesse acontecido, dizendo que, achava que algodão doce não era nada comparado às nuvens.
Ela arrancou dos lábios o sorriso, tinha a expressão intrigante, e portanto abraçou-o infantilmente. Pediu para ficar ali, por um ou dois minutos. Ele a nada se opôs. Se tinha uma lugar seguro no mundo, esse lugar era exatamente ali, aquele abraço. De súbto, largou-o por um só momento, encostou-lhe a boca na sua por um tempo menor que o piscar de olhos e no momento seguinte puxava-a pelas mãos. Eles sentaram-se em um banco, ela tirou um livro da bolsa e começou a lê-lo, deitada no colo dele. Ele adorava isto, ficar olhando seus olhos engolirem as palavras, as páginas, o livro. Ele chegava a duvidar que era a única coisa em que prestava atenção por mais de um minuto, e além do mais, sabia que não prestava 100% de atenção, pois ora ou outra surgia com um assunto totalmente diferente do livro. Ele ainda assim gostava desses momentos. Invejava os livros por ter mais atenção e concentração dela do que ele jamais teve. Às vezes enquanto falava sabia que ela estava pensando em coisas diferentes, no entanto o contrapunha sem piedade, e defendia seu ponto de vista com veracidade que até ele mesmo duvidava de si.
Ele tinha a certeza de que ela o dominava e que ela tinha ciência disto. Ela o dominava porque não era como qualquer garota, porque contrariava suas expectativas, porque o confrontava sem medo. O dominava pois ligava no meio da noite para dizer que decidiu dar a uma estrela quase apagada o seu nome. Que ele se levantasse e olhasse, pois aquela estrela existiu a tempos atrás, e ainda assim brilhava, e assim seria ela, ela dizia. Ela o dominava porque ela vivia se perdendo, vivia perguntando coisas como gosto de nuvens, cheiro do arco-íris, ou se acreditava em destino, sorte, ou karma. Ela o dominava pois com ela, ele era todo dúvidas. Com ela a única certeza que tinha era que não tinha certeza alguma. Ela o dominava pois ele a amava, e sabia - não sabendo explicar como ou porquê- que era um amor recíproco. Ele a amava pois ela era tudo o que queria ser, a amava pois ela não explicava ou pedia desculpas por ser como é. Ele a amava porque amá-la era o que o tornava quem ele era.
Nenhum comentário:
Postar um comentário