quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Cartas para Charles V

Charles,

Dezembro chegou com o tilintar dos sinos e decoração natalina. Aqui nenhum pisca-pisca se atreve a mostrar sua luz, quando tudo é completa escuridão. Agora que tudo vai acabando eu me pergunto porque é que dezembro mora no fim. É o fim de tudo. Do ano, da primavera e de nós.

Charles, não tenho mais resistência para ficar andando contra o destino. Ele sempre irá me levar para o mais distante de ti, ainda que você more dentro de mim. Não sei mais por quanto tempo eu poderei aprisionar todas essas lembranças comigo, mas sei que elas vão se esvaindo, perdendo a cor, o cheiro e a textura. São agora meros borrões dos dias que passei contigo, das músicas que ouvimos, das flores que me entregou. E por falar em flores, nem mesmo elas resistiram à sua ausência. Tentaram florir, morreram secas.

Sabe, Charles, você deveria ter me dito quem você realmente era. Que gostava de sorvetes de creme, de dias de sol, de camisas xadrez e de não pertencer a lugar algum. Eu teria me adaptado, me preparado e aceitado mais. Outro dia me atrevi ir até o portão; a rua estava desértica, os vizinhos, eu acho, se mudaram todos. Por desprezo ou respeito ao luto de solidão que instaurei por aqui. Talvez tenham apenas aceitado que o meu cenário se constrói com solidão. E foi você quem colocou o primeiro tijolo desta obra.

Eu olho para o céu à noite e peço baixinho para que em qualquer que seja o lugar que estejas, tu olhes também. Compartilhar esse mesmo céu, me faz perceber que ainda nos pertencemos, mesmo que por tão pouco. Ainda olhando para o céu, eu vejo como o mundo é imenso. Pensar na imensidão do mundo me faz pequena, Charles. Isto acontece quando eu visto suas roupas e fico sobrando dentro delas, quando meu corpo não preenche toda a cama ou quando estou no alto de uma montanha e tudo parece pequeno demais aos meus olhos. Mas houve um espaço em que eu cabia. Eu me encaixava por entre seus braços e acreditava que o mundo é que era pequeno. Porque eu e você, Charles, sempre fomos grandes demais, até para nós mesmos. E foi aí que nos sufocamos.

Agora que é dezembro e tudo vai findando, eu desculpo nossos erros. E que o mundo nos desculpe também. Sei que foi errado acreditar que nós poderíamos mudar alguma coisa ou tentar amar todo o amor do mundo. Mas, meu querido, é típico de nós. Nossa mania de grandeza nos devastou, nos levou para o deserto enquanto buscávamos o mar. Percebemos um pouco tarde que aquela visão de mundo que tínhamos era apenas miragem, pobre de nós. Tão reféns do destino, tão vítimas do acaso!

Charles, eu fui acabando com tudo aos poucos porque não sei lidar mais com nada que seja tão arrasador. Eu deveria ter feito tudo de uma vez, agora no fim eu vejo o quanto tudo isto me custou, mas sei que não poderia ter sido de outra forma. Nós merecíamos esse fim: calmo; mesmo que nunca soubemos ser assim. Sabe, meu amor, eu nunca soube como eu  poderia deixá-lo partir, mas também não posso mais escondê-lo do mundo dentro de mim. Eu não posso me arruinar mais por um pouco mais da tua dor.

Se todos os nossos erros nos condenaram até aqui, então talvez seja esse o fim mais justo. Sem nós, apenas eu e você. Eu me pergunto para quem escrevo, sabendo que estas cartas jamais tocaram suas mãos. Porém, estas palavras são tuas e não devo guardá-las comigo. Que o destino esparrame-as  por aí, que elas jamais façam sentido juntas e que não sirvam para desencorajar aqueles que se prostram à diabólica mania de se amar. Só porque gastamos todo o amor do mundo, não significa que não tenha restado nenhuma migalha. Só não quero mendigá-las. O fim não é como dizem: amargo ou doce demais. É apenas sem gosto. Destemperado. Charles, será pra sempre nosso a primavera que trazia as flores para de volta dos galhos, o sol que voltava após a chuva e a paz que surgia em um abraço depois de nossas brigas. Charles, serei pra sempre sua, mas de uma maneira só nossa. Esqueça-me, pois é o que farei após o ponto final desta frase.

Nunca mais minha,
Serei sempre tua. 





segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sobre mortes e suicídios de nós

Não houve falta de amor. Se houve um pecado, talvez tenha sido pelo excesso dele, mas não por falta. Nos amamos demais de uma maneira desmedida, sem grandezas ou diques para nos conter. Você e eu não tivemos grandes alternativas; ou nos entregávamos de vez ao que sentíamos ou morríamos. Triste pensar que, no fim, qualquer uma das opções nos levou até a morte.

Eu sempre gritei de mais e você ficava no seu silêncio escutando. Eu calava e você falava baixinho e apressado para que eu escutasse tudo o que você precisava dizer. Não sabíamos nos comunicar verbalmente. Tentamos a linguagem dos olhos, das mãos, do abraço e dos patéticos corações. Nosso maior erro, meu amor. Foi aí que nos sentenciamos, foi aí que nos suicidamos.

Pulamos juntos do mesmo prédio e caímos diversas vezes no mesmo chão. Seguíamos pelas mesmas estradas sem nunca traçar nossos trajetos; não demos em lugar algum. Afogamos no mesmo mar, mas sempre houve alguma barco para nos salvar. Nos agredimos quando não conseguíamos lidar com tudo isso; ainda assim sobrevivemos.

Foi aquele maldito destino que nos afastou. Você encontrou seu trajeto e eu aprendi a não gritar. O silêncio foi perturbador, eu sei que sim. Ficar perdida sozinha não tem a mesma graça. Não tenho braços para me abrigar ou mãos para segurar as minhas quando o caminho se torna assustador, e tudo por aqui me assombra. Meu amor, nós dois finalmente encontramos a morte. Após tantas quedas, água nos pulmões e arranhões na pele; morremos pela ausência. Nos suicidamos da forma mais sutil e ameaçadora. Matamos o amor.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Quarto nº 30

Olho duas vezes antes de abrir a porta e entro no seu carro sem hesitar. Passo o cinto, mudo de música, te dou um olá e mexo no celular. Agora sem mesquinharia ou falso pudor, você me olha com indecência e diz que meu perfume é muito doce. Aumento o volume do rádio e finjo que você nunca disse nada. Você tenta falar sobre o que eu estava fazendo, digo que é tudo muito confuso e assim encerra-se o assunto.

Durante todo o caminho você derrama os seus problemas em meus ouvidos. Tento prestar atenção e te olho algumas vezes demonstrando interesse. Você me beija sem carinho e eu arranho suas costas em protesto. Pergunta o que quero comer e respondo que não tenho fome. Reclama da minha cara pouco satisfeita e diz que meu cabelo está legal.

Aquele quarto de beira de estrada é bem o nosso cenário. Nada de muito luxo, mas sabia enquadrar-se em nós muito bem. Você agride o meu corpo contra a parede e eu cravo os dentes no seu ombro sem remorso. Tudo bem. Encontramos um lugar mais seguro e confortável para a nossa disputa e você acaba ganhando no fim. Como sempre.

Eu me deito em seu peito, sem nada falar, e deixo que mais uma vez você fale incessantemente. Com algumas perguntas, você tenta me fazer sair do silêncio, meio monossilábica deixo tudo como está. É uma boa sensação quando você brinca com seus dedos na minha coluna. Parece até que nós dois sabemos ser sutis, pena que por pouco tempo. Eu brinco com os poucos cabelos do seu peito, e deslizo minha mão sentindo sua respiração, agora lenta e pacífica, enquanto me esqueço do que estou deixando para trás.

Eu queria poder falar de uma vez tudo que vem sempre me calando. Mas, nunca soube expor muito bem, acabaria mentindo. E combinamos de ser sinceros. Agora você se cala e eu volto falando por todo o caminho. Te conto sobre minha infância bem vivida, meu agitada vida-amorosa-adolescente, minha seletiva escolha de parceiros na atualidade. Você não fala muito enquanto dirige. Acho que algo deu errado.

Um beijo no alto da testa e um sorriso de despedida com a promessa de que está tudo bem. Penso duas vezes antes de te dar um tapa na cara e sair do carro. Seria mais prudente. Sem carinhos ou falso sentimentalismo. Típico de nós. Olho em teus olhos e fecho a cara, bato a porta do carro atrás de mim e caminho sem olhar para trás. Fique assim até o próximo quarto.

Dá série: Nossos quartos são campos de batalhas e não cenário de filme de amor. 

O último tango na cobertura.

Hoje é noite estrelada e sei que temos uma encontro na cobertura da torre mais alta da cidade. No meu vestido vermelho, te espero sentada no chão, ainda que eu esteja com roupa de gala. Bebo um uísque, fumo dois cigarros e não me importo se essa falta de compostura não combina com a ocasião. Até mesmo bailarinas descem das pontas, às vezes. Você chega de smoking, sapato engraxado e cabelo de lado, bem alinhado. Puxa-me em um só golpe para que eu caia em seus braços; você, o melhor de todos os precipícios dos quais pulei.

Sem música ou convite, fazemos o que resta a fazer: dançamos um tango argentino. O corpo fala por nós e os movimentos são poucos singelos. Hoje também é nossa última dança e, contudo, é a mais bela; seja por nos empenharmos por ser o fim, ou porque é triste. Sabemos que a tristeza é cenário para todos aquelas filmes que costumávamos ver, por isso são tão bons.

Eu vou cair do prédio mais alto da cidade, porque seus braços não vão mais me alcançar. Mas, por enquanto, só me resta dançar o último tango argentino.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Também não sei amar

Eu nunca aprendi a andar e tô sempre querendo correr. Caio sempre em seus braços e me arranho nos teus espinhos. Um ou outro ferimento eu me preocupo em colocar band-aids, naqueles que me estampam a pele toda, eu deixo em carne viva. Que ninguém nunca duvide que amar dói, mas que todas essas coisas podem se curar. E você nem se importa em me abraçar enquanto eu sangro esse nosso amor. E me machuco ainda mais quando passa as mãos por minha pele na tentativa de fazer as feridas estancar. Somos um desses casais que se ferem porque nenhum dos dois sabe lidar com sentimentos. Você me esmaga no teu peito de vendaval e eu o afogo com minhas crises de tempestades, e tudo bem se juntos arruinarmos tudo. Na manhã seguinte tem sempre promessa de calmaria.

Se esses nossos lampejos não cessarem, sabemos que continuaremos bem. Na ideia do comodismo, acostumamos até mesmo com o que nos faz mal. E nada me faz tão mal quanto você, assim como a fumaça do seu cigarro. Sei que nesse nosso caos alguma coisa vai se perdendo, eu só espero que não seja o que nos mantém assim.

Não sei bem o porquê, mas acho que é nessa nossa agressão que eu não me entendiei como tantas outras vezes. Não me canso, tô sempre em destruição e reconstrução. Tenho medo quando nos toleramos, quando tua mania de falar demais e a minha de escutar de menos não nos incomoda. Tenho medo quando você se deita e me abraça feliz porque não brigamos durante o dia. Quase que adoeço quando completamos mais um aniversário do nosso relacionamento, tudo vai bem demais... Não somos assim.

Você comete o crime de ignorar minhas mensagens e se atrasa para o jantar. Chega sem dizer muita coisa, e vai logo pedindo o prato principal. Queria os aperitivos acompanhados de um elogio, depois o prato do dia. Fica de cara fechada e eu escuto por muito tempo o seu silêncio. Te pergunto carinhosamente se tá tudo bem e me respondes secamente. Te faço um carinho por debaixo da mesa e olhas para o lado. Tudo bem, respiro mil vezes, tudo está bem. E então desabo. Desespero. Entro em pânico. Começo a rejeitá-lo, escondo-me no silêncio e na rispidez. Tu me adulas, me  trata bem, me chama de linda.

Escolhemos as palavras, agredimos um ao outro. Terminamos bem nossa noite. No descaso, no desespero. Meio bêbados e após o último cigarro, nos deitamos sem nos falar. Acordamos no meio da madrugada, sem nada dizer, me aconchego em teus braços e sei que lá reside a promessa de calmaria... Mesmo com tantos estragos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Do outro lado da cidade, do alto do prédio.

O cenário era quase o mesmo do outro apartamento, não fosse os papéis jogados ao chão com algumas palavras rabiscadas. Passara seus dias sentados na cadeira, sob café e nicotina, consumiu as últimas folhas de seu bloco dedicado a poesias. As palavras iam e vinham, e tudo que ele conseguia escrever se resumia a "amor, que coisa tola que tantos adoecem e enfraquecem."

Não saíra para ver o sol ou nenhum de seus amigos. Sua vida se resumia àquela dona do apartamento do outro lado da cidade e desde que ele se fora, tudo perdera o interesse. "Eu devo voltar. Não, preciso deixá-la feliz, preciso ser forte." Nenhum dos dois sabiam ser fortes separados.

"Está me sufocando toda essa sua necessidade de mim [..]. Engula tuas poesias ultrarromânticas e acabe de vez com esse pessimismo, a vida não acaba quando eu não estou contigo."


Ela estava errada, tinha de estar. Sim, a vida dele acabou desde que ele pegara suas coisas e deixara aquele apartamento. "Vida?" Viver não era aquilo. Manter-se vivo não era viver, isto era sobrevivência, sobrevida. Viver era sorrir por vê-la dormir serena. Viver era sentir o toque das mãos macias sobre o corpo dele. Viver era estar junto à ela.

20 andares. Estava no topo do edifício e seria uma queda rápida. Ele era poeta, não físico ou matemático, mas sabia que cairia com impressionante velocidade, e ainda sendo poeta e não médico, sabia que findaria sua vida. Não, ele não poderia entregar uma morte nas mãos delas só porque ela não o amava.

Ele não contestara nenhuma das palavras agressivas dela. Na verdade, em nada a atitude dela o surpreendeu. Sempre a considerou livre demais para que acabasse aprisionada à um poeta. Sabia que qualquer dia ela se cansaria dele, como tudo o mais em sua vida. Cansou-se da mobília, ele trocou; cansou-se do bairro em que morava, eles mudaram; cansou-se da padaria da esquina, passaram para àquela duas ruas abaixo; cansou-se dele. Ele a amava, como a fonte de toda a dor e amor que inspiravam seus poemas.

"Eu vou até ela. Vou dizer que não, eu não consigo. Sou fraco, eu amo, sim! E como todos que amam, eu sou tolo. Eu faço poesias porque não sei amar de outra forma, gosta da melancolia porque me trás conforto que é só o sorriso dela que me faz feliz, nada mais. Não, eu não posso. Fazer-me de infeliz é uma coisa, torná-la infeliz comigo é outra. Sem o sorriso que desperta a primavera, nem mesmo eu conseguiria ser feliz."

A dor o atingia de tempos em tempos. Se lembrava da face dura com que sua amante locutora lhe dizia todas aquelas palavras. Era impossível não se lembrar o quão bela ela ficava, mesmo irada. Toda aquela postura de dona-da-própria-vida, aquela certeza no olhar que só ela tinha. Nenhuma outra mulher sabia ser tão autêntica ou decidida como ela. Só por isso, só por aquelas palavras sinceras, que ele não insistira. Que ele não lutara. Ele gostava de tristeza, mas sabia que ela amava ser feliz. Não seria ele que a tornaria assim..Era melhor ele deixá-la.

20 andares. Tudo que tinha que fazer era se jogar. A vida se acabaria em poucos segundos. Chega de dor, chega de tristeza. Ele a amava ainda... "Uma semana. Se dentro de uma semana essa agonia não passar ou ela me aceita ou eu morro. Das duas opções, ambas são mortes. Morrerei de amor: com ela ou por ela."


       - Da série: Que se finde a vida quando acaba o amor.

sábado, 12 de novembro de 2011

O demônio das onze e dez.

A gente comemorava o natal na páscoa e trocávamos chocolates no natal. Eu vinha trazendo tempestades de areia e você não se abrigava em um lugar seguro, eu te engolia. Sei que você era fortaleza, mas nunca se preocupou em se proteger. Sei que você também nunca soube as datas comemorativas e por isso nunca se importunou de não ter decoração natalina na nossa casa em dezembro.

Você voltava pra casa trazendo pão quentinho e eu passava um café, comíamos juntos no fim de tarde esperando o sol começar a se por para assistirmos juntos. Eu lia as notícias do jornal do dia anterior e ríamos por ver que nada mudou, de fato. Eu ia deitar sempre depois que você já estava sonhando e o acordava sussurrando em seu ouvindo querendo atenção. Meio acordado,  passava as mãos no meu cabelo e respondia minhas perguntas-de-madrugada-sem-resposta. Depois te beijava indecentemente e pedia amor ardente.

Num dia frio, você pegou uma mala velha, ajuntou seus pertences e partiu. Sem grandes explicações, sem muitos porquês. Nada fiz para impedir e fiquei sentada no sofá da sala ouvindo seu vinil dos Beatles. Nunca passei tantas noites sem dormir, e mais uma pergunta se juntou àquelas outras de madrugada. Todas sem respostas. Acho que alguém te contou que não era natal, que na páscoa é que se troca chocolates. E bate no relógio onze e dez e sei que é essa a hora que me lembro de você. Não consigo dormir. Onze e dez e tenho perguntas sem responder. Onze e dez. Que demônio! O demônio das onze e dez...

domingo, 6 de novembro de 2011

Ninguém tem tanta tristeza na alma quanto ela. E que alma mais linda ela tem. Ela tem mania de sorrir bonito só porque chora demais ao adormecer. Ela come o canto dos dedos porque sente fome de si mesma. Ela vira e joga os cabelos de um lado para outro para não se sentir inerte. Ela quer ser feliz mas tudo que se alimenta é triste. Ela tem os olhos mais tristes que já vi, e nunca me senti tão perdido. Ela se bagunça toda porque não sabe o que fazer com tanta coisa que o mudo vai lhe dando. Ela tá sempre caindo, se esbarrando e tropeçando, e faz isso com tanta destreza que até parece  complemento para o seu charme. Porque ela não é delicada. Ela é feroz com qualquer coisa que se mostre amável. Porque ela não sabe amar. Fica escrevendo poesias bonitas de quem ama por séculos, mas nunca amou. Ela se mostra até onde quer e fica iludindo a todos que acreditam que ela é só aquilo. Mas, ela é mais, eu sei que é. Ela é mistério que nunca será desvendado e isso me seduz. Saber que nunca a conhecerei, será sempre a estranha que terei que conquistar todos os dias. Ela não quer ser amada, só quer um pouco de paz e companhia para domingos de chuva. Ela não quer ser amada, mas é tudo o que eu tenho feito: amá-la.

sábado, 5 de novembro de 2011

Trem que vai sem voltar.

Sei que ainda tenho uns mil destinos para te encontrar, e, em todos eles, vamos querer seguir juntos. Mas, meus passos são deveras curtos e os seus apressados. Eu nunca entendi essa sua ânsia de viver tudo de uma vez, mas gostaria de poder saciá-la. Tudo era sempre pouco e você queria mais. Eu me dava por satisfeita por qualquer coisa. Nessas nossas contradições, meu amor foi pequeno demais e você quis algo maior. Partiu no primeiro trem e eu ainda o espero na estação, mesmo que você nunca tenha feito o mesmo por mim.

Eu sempre soube que você não cabia em mim, mas joguei muita coisa fora para que aqui você fizesse morada. Eu ainda guardo aquela tua carteira de cigarro quase vazia e, às vezes, brinco com um cigarro por entre os dedos na tentativa de que eu fique com um pouco do seu cheiro. Não é fácil acostumar-se com sua falta, mas me preencho com aqueles nossos filmes que tanto gostávamos. O difícil mesmo é assistir qualquer coisa sem tua voz repetindo as frases da legenda, ou suas críticas ácidas à todas as atuações mal feitas.

Vez ou outra, alguém até puxa assunto comigo, enquanto vejo os trens partindo e chegando, sentada no banco da estação. Todos parecem tão superficiais, nenhum nunca me tocou no assunto sustentabilidade ou trabalho voluntário. E eles sorriem demais, sou acostumada com tua cara fechada. Digo que tenho que ir, que quem eu esperava deve ter errado o horário e perdido o trem, que volto outro dia. Eu parto assim como você fez, sem muitas explicações ou apego.

Eu continuou com minha vidinha-de-interior. Levanto às seis, cumpro com as obrigações, desperdiço conversas na porta de rua, e leio alguns livros antes de dormir. Às vezes eu choro, um choro calado e abafado pelo travesseiro, mas choro. Eu queria ter coragem de pegar o próximo trem e ir de desencontro com o destino, ao invés de ficar aqui esperando-o voltar. Sou medrosa e me acovardo com o barulho dos trilhos. Volto pra casa e desfaço as malas e programo o despertador para tocar um pouco mais tarde, como forma de rebeldia.

Ainda aprendo a caminhar mais depressa, ou quem sabe, me perder sem medo. Até lá, tomo meu café sempre no mesmo horário, e continuo a brincar com seu cigarro. Quem sabe até não fumo um, pra sentir o gosto que costumava ficar na tua boca....

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cartas para Charles IV



Charles,

São dias como esse em que eu quase desisto de te esquecer. O dia já amanhece chorando e as ruas alagadas se afogam junto com meu coração. Escolho outra vez a solidão e me sufoco de saudades suas. Até o silêncio fica mais sólido para que na insanidade eu talvez escute sua voz. Saber que qualquer estranho pode te encontrar na rua me faz querer sair procurando seu olhar. Andar por esquinas que não dão em lugar nenhum e me perder, porque qualquer lugar tem menos a sua presença que dentro de mim.

Outubro mal se fora e novembro se instalara por aqui com devassidão. Seja pelo cheiro da chuva ou pelo barulho dos trovões, essa tempestade me envolve e eu chovo junto com o céu. Tudo aqui é destruição, a começar por mim, e em meio a todo este caos, eu aceito que tudo vá se perdendo, inclusive as lembranças de ti.

De todas as coisas que eu podia sentir falta, eu sinto falta da sua perturbação. Sei que almas turbulentas como a sua só procuram repouso em marés de calmaria. E eu vinha com minhas tempestades e nós dois juntos éramos furacão. Nenhum amor que se preze se estabiliza em destroços como nós costumávamos ser, mas sempre encontrávamos tesouros mesmo frente à nossa destruição e achei que com isso construiríamos nossa fortuna.

Charles, não caibo mais em tanta saudade. Os ponteiros do relógio repetem sua trajetória dia após dia e eu faço o mesmo. Nada muda. Todo dia me levantou e me deito na cama vazia, e interprete isso nos dois sentidos dessa ambiguidade. Não sei se esse vazio sou eu ou o mundo ao qual tenho pertencido, mas tudo tem sido menos completo desde que se fora.

Não sei quantas cartas terei eu que escrever até que eu arranque de mim essa mania de querer falar contigo. São cartas que não chegam ao destinatário e ainda assim persisto em escrever. Charles, quando foi que nos afogamos em tanto sentimento? Achava que tínhamos aquele tipo de amor que duraria para a vida inteira...

Sinto que os laços que antes nos mantinha presos, vão se desatando e esse nós têm pouca força diante o destino. Tudo foi sempre maior que nós e eu pequena demais para abrigá-lo em mim. Te comparo a qualquer coisa que seja grandiosa, bonita e devastadora porque sabes que eu nunca poderia contê-lo. Ainda que eu fique sempre a esperá-lo, sei que já não voltas mais. O vento te levou por outros mares, e eu de todos os males, este foi o pior. Já não sou navegável, e, tampouco, sei nadar até ti. Nossas águas desaguam por caminhos diferentes. Hoje eu chovo e o céu chora, entre tanta água, a gente se encharca, mas tudo bem, o verão já vem trazendo o sol pra nos secar...

(Não sei por quanto tempo mais) Ainda sua,

domingo, 30 de outubro de 2011

Você bem sabe que eu não sou romântica, mas adoeço de amor. Que odeio dias de sol, mas nunca saio da cama nos dias de chuva. Que não como qualquer coisa, mas estou sempre com fome. Que eu adoro música, mas não escuto nada além de rock. Odeio gente de mau humor, mas vivo sem sorrir. E nada disso nunca te incomodou.

Eu bem sei que você não gosta dos Beatles, mas sabe a letra das músicas melhor que eu. Que você diz não sentir ciúmes, mas escondeu de mim aquela blusa com decote. Que você não gosta de sair de casa, mas sempre que está ensolarado você quer ir ao parque. Que você odeia filmes, mas chora com todos eles. E isso nunca me incomodou.

A gente vai se anulando e tudo bem se no final não tivermos nada em comum.  Pelo menos não vou acabar odiando todas as coisas que gostávamos de fazer juntos. E eu até me disponho a te entender, quando na verdade, eu me perco em toda essa confusão. Fazer todas essas coisas em que nos opomos, me tira do tédio e eu bem gosto de quebrar a rotina.

Eu arranho suas costas e respiro fundo em seus ouvidos porque sei que isso o perturba. Você puxa meus cabelos e aperta os meus braços porque sabe que gosto de suavidade. E em todas essas coisas descobrimos que é assim a melhor forma de nos amar. Sem toda aquela cautela de amantes que pouco se conhecem, fazemos o que queremos e assim adentramos ao que há de mais profundo em cada um.

De todos os que já se atreveram a me amar, nenhum nunca soube como me tirar a paz. E no fim, acabávamos sentados em um fim de tarde, no banco da praça, sem nada por dizer. Saíamos da relação, cada qual com metade da paz e um amontoado de verdades que nunca dissemos. E nunca me doeu esses términos. Mas, daí vem você e se arrisca a dizer que aquele escritor que tanto gosto só sabe escrever coisas que sejam do senso comum.

Você também disse que nunca gostou do meu cabelo preso, nem mesmo da minha mania de comer as unhas. E aí sinto que a sinceridade consumiu a paz e entro em guerra comigo mesma. Evito olhar os dedos pra não cair em tentação e quase me esqueço de não prender os cabelos. Mas daí fico do teu lado e como minha unha logo após de enrolar meu cabelo em um coque desarrumado. E você na verdade me olha rindo e diz que tudo o que mais odeia acabou por se tornar o que mais gosta em mim. Te olho confusa e percebo que aquela sua falha na sobrancelha que tanto me intriga é na verdade a marca que mais gosto em ti.





sábado, 29 de outubro de 2011

Desses desencontros de amor

A gente se cumprimenta com um olhar cabisbaixo e um sorriso meio sem jeito. Parece até que nunca rolamos juntos o mesmo chão enquanto nossas bocas se tocavam. Conversamos sobre o dia estar um pouco mais quente e então ficamos sem assunto, e eu quase me esqueço que uma vez ninguém compreendia o outro porque ambos falavam ao mesmo tempo.

Saímos cada um para um lado e ficamos na incerteza se nos voltaremos a nos ver algum outro dia. Minhas mãos tremem um pouco, mas sei que é só fraqueza por não ter nada no estômago. Essa história já acabou faz tempo e eu já falei pelos quatro cantos do mundo que nem lembro mais de você. E fico sempre esperando que alguém me pergunte pelo seu nome, só pra dizer com um desprezo ensaiado na frente do espelho que faz tempo que te esqueci.

Eu acho que percebi uma pontada de tristeza quando me disse sorrindo que estava bem, mas isso não deveria me importar mais. Acho que deixei transparecer um pouco de ansiedade quando me deu um meio abraço, mas isso não significa muito. A gente sabe que foi só estranhamento por nos conhecermos tão pouco. Ainda que eu saiba em qual parte do corpo é teu ponto fraco e você saiba o único lugar do meu em que eu sinto cócegas. A gente se conhece pouco, ainda assim.

Enquanto caminho sem olhar para trás percebo que ficou algumas coisas por dizer. Por fazer. Por tentar. Eu tropeço um pouco e espero que não esteja me olhando. Mentira. Espero que esteja me olhando e ria do meu andando desastrado e se lembre que sempre me dizia "cuidado ao andar, você pode cair e se machucar e eu não vou querer ver sua cara de choro". Tropeço mais um vez e percebo que eu queria que você risse e se lembrasse com saudade de que costumava correr para me ajudar a levantar. Mesmo com cara de choro.

domingo, 23 de outubro de 2011

Amor não durável

Hoje é uma dessas nossas datas e eu não quero me lembrar. Você sempre se esqueceu e eu tinha que ficar te lembrando, se você fazia isso para exercitar a minha memória, ela ainda trabalha bem. Sei de data por data até aquelas em que não nos víamos. Eu só não me lembro bem daqueles borrões de dias em que nos separamos, cada qual para um lado mais machucado que o outro e cheios de orgulho.

Eu acho que você não se lembra de muito, mas a questão do tempo sempre foi subjetiva para nós. Nosso caso sempre pareceu um daqueles filmes e livros que possuem uma narrativa não linear e cheio de introspeção psicológica. As datas às vezes se fundem e fica difícil separar todas as datas da nossa reconciliação. A gente ia e voltava tantas vezes que o tempo se perdeu entre nós.

Eu até bateria na sua porta hoje e o chamaria para conversar, mas a gente não sabe ser amigos. Temos muito interesse um no outro para conservar a amizade. Teu corpo todo me chama e o meu não resiste ao seu. Eu tô com um amontoado de coisas suas aqui no meu quarto, esperando a saudade ser maior que tudo para usar como desculpa para te ver. Porque você sabe, se a gente se ver, a gente não se resiste. Eu e você somos um daqueles casos típicos de amor físico. Porque emocionalmente a gente se destrói.

Outro dia encontrei seu disco do Chico e fiquei escutando "olhos nos olhos", imaginei você na minha frente e guardei todo o ódio que consegui juntar para quando eu o encontrar. Vou ter tanto desprezo por você até lá, que eu bem sei que vai te doer um pouco. Mas, sabe, outro dia encontrei um velho guardanapo seu em que você me escreveu algumas promessas e eu bem quis te ver. Porque o amor também ficou por aqui, e tal como o ódio eu o guardei todo para você.

Você e eu nunca soubemos nos caber em conceitos, nem mesmo em um relacionamento qualquer. Criamos para nós todos aqueles apelidos ofensivos e nos protegíamos no romantismo. Se estivéssemos em público, a distância entre nós se fazia tão grande que eu chegava até sentir saudades suas. Mas, no íntimo eu e você éramos nós e cabíamos um no outro. Eu ainda sinto o peso do seu corpo sobre o meu naquela noite em que rolamos juntos vendo um céu estrelado. Ainda sinto a chuva cair sobre nós, naquela nossa corrida desesperada por um abrigo enquanto o que queríamos mesmo era nos molhar.

A gente teve o tipo e amor que não se repete. Soube disso no instante em que o vi com outra pessoa. Vocês andavam de mãos dadas e soube que ela garota nunca iria ter a nossa intensidade. Tive a confirmação disso uma semana atrás quando outra pessoa me beijou. Eu e ele tivemos muita proximidade física mas nossas almas pouco conversava. O nosso tipo de amor é aquele que nos lembraremos daqui há anos como a parte mais gostosa e dolorida de toda a nossa adolescência. O nosso tipo de amor é aquele que a gente procura a vida inteira e desperdiça. O tipo de amor que vai sempre ser só nosso.

Se foi o nosso amor mais bonito eu ainda não sei. Mas, a gente soube pertencer. A liberdade e o aprisionamento que nossa história me deu será pra sempre minha melhor lembrança. Liberdade para rir de quando você era ridiculosamente romântico, mas aprisionada ao seu sentimento e as suas palavras sentimentais. Eu espero que isso jamais se repita, é nosso, só nosso e já se expirou. A gente sempre viveu tudo isso de forma tão intensa que gastou um amor que deveria ser pra vida inteira. Mas, se bater saudade, eu bem que tô querendo aquele livro da Clarice que ficou com você...

sábado, 22 de outubro de 2011

A gente não quer amor

A gente não quer amor. A gente quer companhia para ver filme, discutir sobre Woody Allen e trocar mensagens antes de adormecer. A gente quer acordar no domingo de manhã com uma pessoa do lado para curtir preguiça o dia inteiro. A gente quer alguém para compartilhar o café da manhã e não jantar sozinho. Alguém que entenda sua solidão, mas não a deixe tão só. Alguém que veja beleza até mesmo na sua forma de ser triste. Alguém que vá escrever poesias no íntimo, que irá entregar toda a sua intensidade para que você se afogue. Alguém que vá rir de seu jeito desastrado, que fará graça de algo que faz errado. A gente quem nos aqueça no inverno, quem vá caminhar conosco na primavera, vá tomar banho de piscina no verão, e vá catar algumas folhas no outono. A gente quer quem nos entenda e não quem tente nos mudar. A gente quer alguém pra compartilhar nossas derrotas e comemorar conosco as nossas vitórias. A gente quer reciprocidade. A gente quer alguém pra nos acompanhar no show daquela banda que tanto gostamos e que vá gostar das mesmas músicas que gostamos. A gente não quer amor, mas se ele couber em todas essas coisas, então ele será bem vindo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sua vida e eu

Você não é a mulher da minha vida e sabe bem disso. Você é mulher da sua vida e cuida-se com esse intuito. Fez-me de tolo durante muito tempo por acreditar que eu te tinha nas mãos, que dominava seus pensamentos e que sua vida se delineava em torno da minha. Bem sei eu que estive enganado, e que nada disso acontece se não for ao contrário. Sou o homem da tua vida? Sei que não, provavelmente tens uns quatro a mais que se disponibilizaria a fazer o que quiser, e ter alguém sobre o seu domínio sempre foi seu sonho. Mas, sou quem ocupa a maior parte da tua agenda e também o lado esquerdo da sua cama, e por comodismo, me dou por satisfeito.

Você sempre foi um estilo de mulher que jamais me apaixonaria, e talvez por isso, que eu o tenha feito. Mulheres não dizem no primeiro encontro que gostam de ficar sozinhas. Transmite a ideia de que não quer ninguém na sua vida, e homens gostam disso, da ideia de não se comprometerem. O problema maior foi que você disse isso com 5 homens ao seu redor, e para completar, estava em um bar bebendo cerveja pelo bico e escutando rock pesado. Mulheres não fazem isso, e isso é tudo que homens gostariam que fizessem. Tive que disputar sua atenção com todos os demais e você sorria para todos nós por igual. Você balançou os cabelos, bebeu mais que eu, e ainda discutia sobre a problemática do cenário internacional. Mas, ao dizer que você tinha um estilo meio Janis Joplin de sorrir e deixar os cabelos ao vento, você me beijou e disse que ninguém nunca dissera tal coisa que a deixasse tão atraída. Saberia eu um encontro depois que você amava Janis Joplin.

Irrita profundamente pensar que não sou só o que passa por sua cabeça. Que não sou seu primeiro pensamento quando acorda nem o último antes de dormir... Incomoda-me porque você é o meu. Sou eu quem se delineia em sua vida, vou me enlaçando, cabendo nos teus espaços, nos teus abraços, me colocando em sua rotina. Eu sou teu por completo e te tenho por uma parte mínima.  Se tinha planos de fazê-la minha, tornei-me seu.

Escutar rock não faz de você uma roqueira. Você disse após o primeiro beijo que não dormia com ninguém no primeiro encontro, quatro horas mais tarde, depois de muita conversa sobre nossos gostos, estávamos com as roupas no chão e deitados na cama do seu apartamento. Ir pra cama no primeiro encontro, não significa que nunca mais nos veremos.

Não sei se te disse, mas teu cheiro é impregnado em meu corpo. Como se depois de tanto tempo, eu o exalasse. Sou mais teu que meu, mas já não me importo mais. Prefiro assim, entregar em suas mãos o controle que nunca esteve nas minhas. Não sei me ser depois de você. E diziam que você só pertencia a quem queria.... espero por esse dia.

Eu já desisti da ideia de ser o homem da sua vida e fazê-la mulher da minha. Eu quero que vivamos juntos, e como você sempre diz, sem conceitos algum. Sei que se a gente deixar de segui junto, em algum momento eu deixei escrito na história da tua vida a minha presença. Mesmo que seja o tolo-apaixonado-que-fazia-tudo-por-você, eu bem vou gostar de ter ficado. E beberei com meus amigos em um bar dizendo que finalmente você fora a mulher da minha vida. Só por não haver mais motivos para amar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sobre relacionamentos e outras relações.

Dizer que eu não imaginava o que fosse acontecer, seria mentira. Eu imaginei diversas situações. Tive que deixar de pensar, e colocar meus desejos acima de minha razão. Pessoas racionais não fariam isso, mas eu não quis ser racional. Aceitar todo o risco e o perigo, foram temperos para todo o resto. Eu sai determinada a entrar no carro e parar em outra cidade, não escrevi o roteiro dessa aventura.

Entrei no carro recebendo como convite teu cheiro, e este foi bem atrativo. Tocar nothing else matters é golpe baixo para quem estava tentando se controlar. Entreguei de vez só de falar, e sabia que dali em diante o controle fugira das minhas mãos. E você bem que o pegou antes que eu o reouvesse.

Colocar na minha decisão as duas escolhas, foi calculado. Aquele beijo foi amostra grátis para o que viria a seguir. Parar naquele bar, foi estratégico. Duas garrafas de cerveja, necessário. Conversas do nosso dia-a-dia, um gole, risadas, um gole, suas mãos tocaram minha perna, um gole, um riso, dois goles, três goles, um beijo, um gole, " eu sou um desafio para você", um gole, outro beijo e a cerveja tinha acabado. Hora de ir embora.

O lugar bem escolhido, nos levou a duas ruas abaixo. Ainda em minhas mãos a decisão, joguei tudo pro ar. Teu cheiro me dominava e eu pouco tinha controle sobre mim. Teu corpo junto ao meu pareciam encaixes. Com tuas mãos tão firmes, me desfiz em seus braços. E tudo se perdeu naquele lugar. Queria ter o controle, o domínio, e o acaso. Não tive nada além de você.

Neguei o principal. Aceitei os detalhes, fiquei em silêncio. Você tentou uma, duas, três e pelo menos nisso eu fui mais forte. A gente se pertenceu. Depois tive que sair catando os pedaços de mim que por lá se desmancharam. Água fria dentro e fora do corpo. Um pouco de mim ficou, sempre fico aos pedaços e nos lugares. Mas, um pouco de mim foi contigo.

Você, foi de todos, o mais imprevisível. Me tirou do comando e não me deixou pensar, me deixou ao som do bom e rock 'n' roll e me fez dançar. Não sei quanto de mim se perdeu naquele lugar, mas já não há muito que se encaixe mais. Sorrio pelo fim da história e sei que ela daria um bom livro. Com mais descrições e um pouquinho de romance do alter ego, daria um bom best-seller. Mas, venceu a racionalidade....

Fim da noite e eu sei que histórias como essas não se repetem. Foram feitas pra se viver uma noite e encerrar no silêncio de um beijo.


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cartas para Charles III



Charles,

Outubro chegou me trazendo chuva e ainda mais solidão, mas de você, nem um pouco. Começo a pensar que não há mais descaminhos que te tragam até mim. As noites tem sido longas e os dias breves, talvez seja só minha negação à luz, mas já não há brilho que afaste a escuridão.  Até o céu tem chorado sua falta; em dias de chuva com este, deixo que escorra pela janela todas as lágrimas que de mim já não caem.

Setembro passou sem grandes novidades. Desisti de usar tua camisa, visto que, seu perfume enfim foi-se com o tempo. Pudera as lembranças serem levadas assim... De tudo de ti que aqui ainda resta, apego-me a manias que talvez você nem mais as tenha. Mordo os lábios, destampo a caneta mil vezes, rasgos e jogo no chão tentativas fracassadas de poemas, e bebo café. Talvez eu até derrame um pouco neste papel que é pra tu provar do gosto que tem estado em minha boca. Café amargo. Amargura.

Se teu cheiro foi-se com o tempo, as pétalas foram levadas pelo vento. De tão secas e carentes, caíram uma a uma e no fim só restaram os espinhos que me perfuram as mãos. Nunca vi tanta beleza na natureza morta, agora posso entender a graça da outono. Mas, para o meu desgosto, estamos na primavera; e árvores florindo só me lembram que até pétalas retornam para os galhos quando caem, mas tu não voltastes. Apego-me aos espinhos com a esperança de que eles não mais floresçam, para assim fazer companhia para tua ausência, para enfeitar o cenário da minha solidão.

Entrego-me lentamente a impulsos de morte e nem me preocupo em contar quantas batidas de coração ainda me resta. Dizer que sinto sua falta é eufemismo para toda a agonia que em mim tem habitado, e afeta-me pensar que já me habituei. Derramo meu corpo na cama vazia e me preencho de solidão. Expando meus braços e pernas na tentativa de querer ser maior. Charles, nunca me senti tão insuficiente. Nem mesmo com todas as cobertas e travesseiros consigo ocupar o teu lado da cama.

Pela triste melodia que os vizinhos tocam, atrevo a pensar que seja canção de compaixão. Que se compadecem pela melancolia que todos os dias me visita. E de toda a solidão que me condenastes, tenho feito dela uma melhor companhia. Tristeza e desespero tem sido temperos para meus dias, e a saudade, bem, a saudade é o principal alimento.

Charles, não sei como te deixar ir ainda sendo tão meu, e eu, sendo tão tua. Tu sabes se deixar por aqui, se abandonar aos poucos. Tomara que tua falta desista e tu voltes antes do verão chegar. Pois, tu sabes que não confio em chuvas de verões, porque não se chove sem frio, como não se ama sem se machucar. E não confio em nada dessas coisas, contudo é só o que acredito. Desmancho em sentimentos incompreensíveis me abandono em qualquer precipício. Sigo fingindo que é pra acostumar a não te ter aqui. Charles, volte antes que sua falta se solidifique e eu desaprenda a sonhar contigo.

Ainda sua,

domingo, 2 de outubro de 2011

Sobre atração e outras intelectualidades.

Ao contrário do que pensas, tu não me atraiu com suas dialéticas filosóficas. Nem, tampouco, com tua mania de sorrir calado. Tu me atraiu por rir agudo e me dizer - após quase dois anos de nos conhecermos - que eu tinha o sorriso mais bonito. Então, depois tu apelou para o meu ponto fraco: disse que eu era inteligente antes de dizer que eu era bonita. Mas disse que eu era bonita, linda, na verdade. E que isso te agradava em uma menina, menina não, mulher.

Qualquer um sabe que eu fico puta de raiva quando me deixam esperando. E quando me deixam na expectativa. E quando quebram a expectativa. E quando nem ao menos me explica quando eu devo parar. Porém, eu sai toda linda.  E tu não foi. Passou uma, passaram duas, três, quatro horas, eu já estava indo embora e tu não foi. Dizer que eu fiquei chateada seria mentira. Distrações sempre existiram, me diverti com um copo de vodka - dois porque um eu derrubei - com conversas do meu nível e sendo muito bem elogiada.

Fui cantada por um moleque qualquer aí, tive que dar um fora, odeio fazer isso.  Ficou insistindo, implorando. Homens deviam ter um pouco mais de amor-próprio, mas ele era moleque ainda. E sabe o que me deu vontade de responder? Teu nome. Dizer assim: "deixe a barba crescer, moleque. Escuta um pouco mais de rock e vá ler sobre qualquer coisa que te enriqueça culturalmente. Vá viver um pouco mais e me venha com aquele ar de "eu sei"." Seria crueldade, insisti no não, tive que ser um pouco mais dura e acabei desviando a conversa.

Ao chegar em casa encontro uma mensagem sua, dizendo que queria ter ido e dando desculpas levianas. Desconversei. Tu dissestes que queria ter me visto, que se arrependia, pois pelas fotos já publicadas eu estava linda. Desconversei. Disse que se arrependia, porque queria me ver fora daquele nosso círculo, queria me encontrar sozinha, por aí. Desconversei. Aí veio me dizendo que era linda, que meu sorriso te conquistava e veio de novo dizendo que eu era inteligente. Teu aluguel estava um nível melhor que o do moleque, porque você tinha mais chances. Daí disse que queria me tirar da linha, porque toda essa conduta que eu tinha, haveria de haver um desvio. Tive que perguntar para quando seria nosso encontro....

Tu me ganhou por ter uns anos a mais, por ter um pouco mais de vida nos olhos, por fazer estilo certo mas contradizê-lo no particular. Todo mundo sabe que fico atraída por perfumes como o seu. E por pessoas mais velhas. E por pessoas com intelecto elevado. E que gosto do proibido. E do perigo. E da adrenalina de sentir frio na barriga. E agora a gente sabe que vai se encontrar. Se tu me deixar mais uma vez toda linda te esperando... aí tu sabes que eu apaixono.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Do, re, mi, fa, sol, la, si do

Há tanta tristeza nestes olhos que sorriem, há tanta singeleza nos teus atos desastrados. E já não há canto que te encante, mas não resisto a tua melodia. Meu querido, pouco de nós ainda resta, no entanto nossa sinfonia continua a tocar. E vem da dor do Do, vem de Re, vem de MIm, vem de Fá, e o Sol nem vem mais de Lá. Mas, vem a noite com tua escuridão e me abrigo em teu peito vazio. Junto minha solidão com a tua e de repente nem me sinto tão só, sinto de nós uma Dó menor. E então escuto, escuto o som ritmado da batida do teu coração, escuto a melodia que emana de sua respiração e escuto a sucessão de silêncio que me satisfaz. Tua tristeza canta e me atento à harmonia de dor e beleza. Vens soprando sua sinfonia em soprano e entre teus acordes faço um acordo de ficar até que a última nota musical seja tocada, até que eu toques na tua mais escura canção e que, Si puder, a faça em um Sol maior.

domingo, 18 de setembro de 2011

Sou só, tua.

Não alimente mais uma vez minha solidão partindo. Não, não vá. Desta vez tenho certeza que a solidão e tristeza me engolirão e padecerei no desespero de me ser. De me suportar, porque apesar de, não sei ser-me. Não vá, porque nunca tive tristeza compartilhada, nunca sorri com os olhos e nem suportei me ser por mais de um dia. E contigo aprendi, aprendi a me tolerar, aprendi a ser feliz com tua felicidade, aprendi, atrevo-me dizer, mas aprendi a ser-me. E quanto de tormento minha alma ainda pode suportar? Quanta auto-condenação me darei por ter partido? Tudo isso porque não sei coexistir, duvido até que eu não saiba existir...Mas, eu tenho existência, me dizem isso quando pedem minha RG. No entanto, aprendo, se tu quiseres, aprendo a coexistir, a prestar atenção ao que dizes e ao que fazes. Aprendo tudo isto por ti, meu querido que me faz existir. Porque eu sou só, eu sou só e só sua, sem medo de ser. Sendo tua passo a existir que não seja dentro de mim. Portanto, não, não vá. Deixe inanimada minha solidão e alimente minha vida.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Mulheres não têm ideal.


Intelectual, barba por fazer, camisa xadrez, allstar, poeta-romântico, ou ao estilo de John Mayer. Mulheres idealizam este tipo de homem.Mas, não se engane, ao fim do dia, quem ganha seu coração é quem o melhor maltrata. O ideal escorre e fica aquele que em nada se encaixa, troca o homem-ideal pelo malandro. Qualquer mulher que negar estará mentindo, e acredite quando eu digo isto.

Nós mulheres queremos aquele que melhor vá nos compreender, aquele que nos ligará de madruga porque simplesmente deu vontade de falar, que irá aparecer de surpresa para buscá-la e deixar todas as outras invejosas. Mulheres querem conforto, carinho, cuidado e ter o homem-sentimental. No entanto, não se iluda.

Em qualquer visão seria este o cara que a teria nas mãos. Não é bem o que acontece. O engraçadinho da turma, aquele que a fará rir falando de besteiras ou de conversas sujas, aquele que todos sabem que pega-todas-calado-e-depois-as-largam, aquele que é sedutor para depois descartar. É esse que a tem. É por esse que ela irá suspirar sonhando acordada e chorará noites de insônia. É este que não liga, pouco se importa, faz promessas vazias que não aparece nos encontros e a deixa toda linda na sexta à noite em casa, para ir sozinho em outra festa. Subtende-se que sozinho não é bem sozinho. E ainda as trocam assim que tem oportunidade.

É mistério sabido o porquê de mulheres serem assim. O ideal fica em casa e ela vai à procura de quem melhor vá lhe maltratar. Parece que sofrer que a faz criar o ideal, mas na prática, os homens-ousados, homens-pegadores são aqueles que as conquistam, que as iludem, que as amam e lhes dão amor, para depois deixá-las de corações partidos assistindo "ele não está tão afim de você" e com algumas barras de chocolate.

E perguntam o porque que aquele a maltratou, e jura ficar com o homem-ideal da próxima vez. O tímido, sincero e romântico fica de lado quando o pegador-sedutor-malandro invade o mesmo ambiente. Ele faz do tipo mistério, troca de olhares, fará comentários que a deixará sem-graça e a deixará pensando nele o dia todo, ele a colocará em modo de espera para todos os outros homens, impedirá que as poesias do homem-poeta a comovam e a fará parecer que elas são ridículas.  E será por ele, novamente, que ela sofrerá. E só depois, bem depois, que perceberá que ele nem a conhecia, que não sabia teus gostos e que tudo o que mudou por ele não faz sentido. Irá ler as poesias tristes do homem-poeta-desprezado e desejará ardentemente um homem-ideal.

Mulheres não querem quem entende de arte, tenha bom gosto musical, saiba discutir Foucalt ou Comte, nem aqueles que conhecem passo a passo da história, saibam o que acontece no cenário internacional, e saiba recitar de Gregório de Matos à Vinícius de Morais. Não querem nem mesmo aqueles que levam café da manhã na cama, elas querem é quem a deixa sem apetite no café porque não apareceu no jantar da noite passada. É quem escuta a banda do momento, fale e escreve errado, acreditam que escrever é "viadagem" e que ler é perca de tempo. Querem aquele que vai pra balada ao invés do que fica em casa vendo uma boa sessão de Woody Allen.

Eu me pergunto "porquê, mulheres?" Por qual razão desprezamos o amor que sempre quisemos por aquele que nunca teremos? Porque deixamos de lado, o homem-ideal pelo malandro? No fim, iludimos o idealizado e os maltratamos da mesma forma que os outros homens fazem conosco, e aí eles passam de homem-ideal para homem-malandro. Talvez, residi ali o mistério das nossas escolhas, ao final, sabemos que o ideal virará o sedutor e por ele nos apaixonaremos. Contudo, prometemos que da próxima vez nos apaixonaremos pelo ideal. Até que entra o sedutor sorrindo, nos fazendo rir e pagando-nos uma bebida...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Amores cíclicos também terminam.



Voltamos para onde começamos. Perdidos e sem destinos, nos entregamos ao que chamamos de acaso. A distância entre nós nunca se fez tão grande, a ausência de ti nunca foi tão sólida. Poderíamos voltar para a metade da nossa história, bem lá onde nos achamos e seguimos um trajeto não traçado. Mas, voltamos ao ponto de partida.

Esperar que nos encontremos por aí é pedir demais do destino. Nossos acasos foram esses casos que se findaram. Sem palavras ou despedidas, espalhou-se todos os sentimentos que nunca juntamos. E sempre soubemos que em uma das nossas idas, talvez, continuássemos seguindo sem voltar. 

Esse amor de primavera é fadado ao fim. Mesmo com todo o sol, calor, chuvas e cuidado, finda antes do natal chegar. Pudera ser só amor de verão, que no Brasil, dura o ano inteiro. Que rache de sol ou inunde de água, eu preciso de um amor assim. Que não dependa do "se" para acontecer. Que não dependa de nada além da vontade de se querer.

Contudo, não encontramos essa saída. Nesse amor de círculos, sem início e sem fim, parece ter se arrebentado, uma vez que seguimos por lados opostos. Uma vez que deu-se o fim. O fim de nós, de mim e dessa estrada. Ainda perdida, vago pelas lembranças vagas, lembranças escassas, lembranças esvaecidas. De volta aonde começamos, espero encontrar bem mais que você no final desta caminhada.

sábado, 10 de setembro de 2011

Eu que não amo você.



Tu sabes que eu teria ficado. Teria ficado mesmo com o discurso de eu-vou-para-nunca-mais-voltar. Teria ficado se tivesse calado meu silêncio com um beijo. Mas, tu nada fizestes para  impedir que eu catasse os meus poucos pertences no teu apartamento e saísse por aquela porta aberta.

Eu dizia odiar cigarro até sentir a fumaça que saía da tua boca toda vez que acendias um. Passei a fumar. Propagava uma política anti-bebidas-alcoólicas, até provar nos teus lábios o sabor do conhaque. Passei a beber. Todas essas coisas que não fazia e passei a fazer desde ti.

Esses dias senti saudades, vontade de voltar. Mas, tu não me impediu de partir daquele jeito. Pensei ter deixado claro que todo aquele desespero nos olhos e a hesitação em sair era devido a vontade de ficar, era pedido para que lutasse e dissesse "fica, menina". Se tu não o fizestes, não voltarei.

Sabe que sempre gostei de lutas e desesperos. Não o fiz assistir todas aquelas comédias românticas só para me fazer companhia, esperava que com elas aprendesse que, se caso eu partisse, tu deverias lutar por mim. Deverias se ajoelhar, se humilhar e implorar "não vá". E eu parti. Esperei, sem sair de casa, alguns dias a tua procura. Dizer que não sabe viver sem mim, que sente minha falta, que sem minha presença tua vida não existe. Tudo bem, um pouco menos de sentimentalismo. Mas, esperei.

Eu não suporto esse teu conformismo. Tendo dito isto a um bom tempo...Aceitastes que eu saísse e nem demonstrastes arrependimento. Talvez eu não tenha feito a falta que tu me faz. Embora, eu acredite veemente que conformastes com minha ida e até mesmo com minha ausência. Em caso de não ter notado, nos filmes, esta é a parte que eu sofro, mas tento superar e, após desistir, tu vens atrás de mim.

Eu sempre disse que nunca amaria alguém. Um dia, por brincadeira, tu dissestes "eu nem amo você" carregado de ironia. Fiquei sorrindo, meio encabulada, porque não havia relacionado a palavra amor ao nosso relacionamento. No entanto, eu não disse nada de volta. Agora, tenho feito todas aquelas coisas que dizia não fazer. Com um copo de conhaque e um cigarro aceso digo: eu que não amo você.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Charles II





Mas, tu não voltastes, Charles.

A espera de ti me domina e padeço em qualquer lugar. Com fios tênues de esperança, entrego-me à ilusão de que talvez estejas a caminho. Charles, não permitas que eu desista, não mais. Desistência sempre foi um mal de que sofro, mas nunca perseverei tanto em uma única coisa. Na verdade são duas coisas, mas ambas se convergem em ti. Uma consiste em esperá-lo e a outra em não esquecê-lo.

Dias de sol já não importam e toda a melancolia do inverno me agrada. Já não tiro tua camisa que é para não perder teu cheiro como tudo o mais que se perdeu. Mas, meu cheiro contrastado com o teu já não tem o mesmo sabor. Nossos corpos juntos exalam muito mais perfume do que meu corpo preso a tua camisa. No passar do tempo, meu cheiro agarrou-se ao seu e tem tornado mais difícil sentir teu aroma. E ainda há tanto de ti aqui. Há tantas perguntas que tenho para te fazer, tanto do teu corpo para conhecer, tanto de ti para amar.

Com tua falta ainda mais sólida, os vizinhos já não me importunam. Esqueceram-se ou quem sabe desistiram de mim. Pensei até em ser mais agradável, mas não me importo, que eu seja esquecida uma vez que tu pareces ter-me esquecido. Esquecida como um livro ruim, ainda sem lê-lo por completo, no canto de um estante empoeirada.

Setembro veio devastador, Charles. A demora de agosto com a qual falávamos passou rápido, mas monótono. E setembro veio sem tua chegada. Sorte a minha que ainda faltam muitos dias para que ele acabe, e quem sabe, no início de outubro o tenha aqui.

Mas, Charles, tu não voltastes ainda. Começo a definhar ao pensar que talvez não venhas mais. As pétalas caem uma a uma e provavelmente em pouco tempo só restará os espinhos. Vês? Até a beleza foi-se contigo. E nem quero falar da felicidade... Tudo anda vazio e com saudade de ti. Com tanta água que jorra dos meus olhos eu até poderia regar as flores, mas desta água salgada e carregada de dor nem mesmo plantas querem beber.

Charles, o sol não mais se levanta neste horizonte, e por isso, estou sem direção. Pergunto-me se há alguma estrada que me levará até ti ou se em alguma delas iremos nos encontrar. Que exista espaço para nós dois em algum desses lugares. O destino que insiste em nos afastar é o mesmo que um dia nos juntou...quanta injustiça, não?

Parece inalcançável como sempre, mas persisto. Persisto na vaga ideia de que tua demora se deve a problemas aéreos, rodoviários, ferroviários ou nesses transportes intermodais. Não é culpa tua, eu entendo. Charles, tô com tua camisa, livros, uma xícara de café; esperando só tu chegar para afirmar de que tenho tudo que preciso. Então venhas, venhas antes que minha mania de desistência seja maior do que tudo que sinta por ti. Ainda que o que eu sinta por ti seja grandioso e dure uns 100 anos.






segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Volta a incomodar

Vestindo tua saudade e despindo as lembranças. Porque me sufoca tua ausência e me esvazia tudo o que não pode mais acontecer. Eu passo a vida inteira querendo entorpecer tudo que não me é superficial, para depois querer sentir de novo. Escondo o que sinto por ti, por puro medo de que seja maior do que eu. E então se revela, como o sol em madrugada fria, como fogos em noite de ano novo. Se revela para voltar a incomodar, tudo o que parecia estar esquecido, volta a incomodar.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Cartas para Charles I




Charles,
    Tu não voltastes. Nem no dia seguinte, na semana que passou, no mês que procedeu e nem duas estações depois. Tu deveria ter voltado, mas não o fez. Procurei ignorar à princípio, encher-me com conversinhas de porta de rua e dar jantares para toda a família, mas tua ausência foi maior. Faltou você aqui, como faltou pó de café no pote, na garrafa e na xícara de café da manhã. Faltou café quente, você na cama, no sofá e dando beijos no portão.

    Tu ficastes de voltar, mas não o fizestes. Repito por ênfase e para culpá-lo. Para preencher-me com os hiatos que deixastes na minha vida, comecei a fazer análises críticas sobre os ensaios do nosso relacionamento. Julguei pelos teus defeitos que seria fácil esquecê-lo, comecei a apegar-me à eles, e, no fim, transformaram-se em suas melhores qualidade.
    Ontem encontrei uma blusa sua, suja e esnobando teu cheiro, e decidi que desisto. Charles, eu sinto sua falta. Decidi que sinto sua falta como sentirás da tua camisa preferida que está agora em meu corpo que sua frio em minha pele nua. Decidi que te amo, e que para este mal talvez não há cura.
    Charles, tua falta me faz regressar aos pesadelos de abandono. Eles se curaram enquanto estivestes aqui, e se intensificaram desde que se foi. Ah, Charles, se soubesses que a conversa de porta de rua aumentou desde que me deixou. Os vizinhos reclamam tua falta, se atreveram a dizer que fiquei pouco humorada desde a última vez que me viram com você.
    Mas, Charles, a gente se pertencia. Fosse pelo destino ou por vontade, a gente se pertencia. E sabíamos nos pertencer, cada qual pertencente mais ao outro do que a si próprio. E a gente se perdeu. Seja novamente por destino ou vontade - tua é claro -  a gente se perdeu. Talvez estejamos perdidos ainda, e nos encontraremos juntos.
Pelo desespero com que se foi, atrevo-me a desejar que ainda há de voltar. Tu voltas, não voltas? Pela tua camisa ou pra um último café. Volta, que é pra eu sorrir, e quem sabe, não te faça ficar. Teu livro ainda está naquela página marcada, tua toalha dependura no box do banheiro, e teu cheiro está em toda casa - no meu travesseiro, no lençol e em cada amanhecer.
    Charles, sei que não é certo pensar em ti tanto assim. Sei que essa saudade ainda me afogará com todas as lágrimas que vem se derramando pela tua falta. Mas, Charles, meu querido Charles, é maior do que eu. Eu te amo, te amo, e é tanto, que tanto já perdeu a intensidade. Charles, nos pertencemos, nos queremos, nos somos. Eu te pertenço, eu te quero e sou toda tu. Se não for um crime muito grande, que esta carta chegue com um cheiro meu, e que desperte em ti a saudade de mim, e que você a atenda e venha logo.



domingo, 28 de agosto de 2011

Estórias silenciadas, mas vividas mentalmente.







Viemos nesse jogo perfeito desde março ou abril, não sei. Nesse jogo pouco maduro e expositor, houve troca de olhares, conversas ambíguas, indiretas perfeitamente direta se analisadas de trás para frente. Tu, menino, tão mais novo que eu, por um ano apenas, se fez muito mais homem do que muitos dos de 20 e poucos que conheço por aí.
No dia-a-dia, tu me vinha sempre ao contrário. Se tava triste vinha sorrindo, se queria afago me fazia afastar, se queria proximidade me agredia. E eu te agredia com palavras e fisicamente. Estúpida de mim pensar que, embora com teu corpo extremamente magro, eu seria mais forte que você. Sempre virava a luta ao teu favor, me torcendo os braços e fazendo com que eu batesse em mim. Quanta raiva sentia de ti, e tu sorrias e dizia "ah, você se bate e eu que sou culpado?". Eu tinha que rir também, ficava brava com você poucas vezes.
Ficava brava quando vinha contando que tava de caso novo. Como assim ousava trair nossa relação? Que relação? Nossa brincadeira de querer com os olhos e manter essa vontade silenciada. Acho que tu contavas os detalhes para que eu sentisse raiva, que eu o odiasse e declarasse fim de jogo, aceitando a derrota. Pois, seria derrota se eu verbalizasse primeiro que queria, queria sim. Que eu gostava.
Não falei. Entrei de cara no jogo e fui vencendo. Dizia sorrindo, dissimulada e morrendo por dentro, que tomara que desse certo teu novo caso. Com a guria de outras histórias, com aquela da festa de outro dia, com a nova que conheceu. E sempre sorria, profunda e aliviadamente, quando seus casos não chegavam nem há um mês. Egoísmo meu, não nego. Não queria perder o jogo, nem tampouco te perder.
E tu me surpreendia todo dia. Sou assim boba mesmo, que se surpreende com obviedades. Como quando lembrei-me que não gostavas de pão de queijo, mesmo que houvesse dito apenas uma vez, e tu me olhou sorrindo e disse "você lembrou", meio impressionado por eu me lembrar de uma coisa tão idiota. E isso me surpreendeu, que você reparasse justamente nisso. Eu me surpreendia por quase tudo. Mesmo sabendo que do nosso grupo era o que tinha maior probabilidade, fiquei boba quando nos deixou porque conquistara aquilo que todos estamos (ainda) buscando. E eu sabia que você nos deixaria antes, tentei ganhar o jogo até lá. mas, a partir de um dia o jogo parou de fazer sentido. Comecei a perder ao ver que gostava demais daquilo, que queria que sacasse o que eu escondia e que ganhasse o jogo. Daí você saiu e ficamos no 0x0.
Eu deveria ter te intimado aquele dia que saímos juntos. Que ficamos cara a cara, cada um com uma coca e falando sobre o que gostávamos. Deveria ter te prendido na parede, de roubado um beijo e saído em seguida sem falar nada, que era pra eu não perder o jogo. Ou até mesmo naquela galeria de arte, te roubado por um tempo, e antes que alguém desse nossa falta, teríamos entregado o jogo. Ou deveria ter aceitado a derrota e dito que tu me atraia. Mesmo sendo menino e eu mais velha que tu. Porque tu era bem humorado.
Não foi justo hoje vir com tua carência enquanto eu curtia a minha. Conversas de madrugadas nunca são uma boa, sabia disso, mas arrisquei pelo gosto do proibido. E tu me entregou o que não deveria, eu falei o que não pudia. E fui eu quem primeiro perdeu, de forma proposital, porque não queria ser tão covarde quanto você.
A conversa terminou numa boa, mas ainda indefinidos, transitivos. Ficou acertado que tu é números e eu palavras. Que continuasse tua nova história e que minha vida se acertasse.  Que fique por acontecer, ou pelo que podia ser, porque foi bom de se viver até aqui. Que fique com a possibilidade do acaso. No entanto, resgatando aqueles sentimentos do primeiro semestre, que teu caso não dê certo e que tu venha acertar minha vida. Mas, venha rápido.

sábado, 27 de agosto de 2011

Deste lado da cidade, do alto do prédio.





No penúltimo andar de um prédio, em um apartamento quase inabitável, uma mulher evita a janela. Pela sala há roupas jogadas, sapatos largados e um corpo que se estira pelo sofá. Ao alcance de sua mão, o cinzeiro, e entre seus dedos um cigarro quase no fim. O corpo é o daqula que evita a janela. E tudo o mais também é dela. Até a vida que aos poucos vai se esvaindo de seus olhos.

Pela lembrança quase intocada, dá-se os últimos suspiros daquele amor que há alguns dias pegou as malas e disse adeus. E desde esses "alguns dias" restringiu suas atividades vitais àquele sofá já delineado com teu corpo, um pouco de café - que é para não dormir e não se esquecer da dor - e ao cigarro na boca. Falta tudo que nunca a preencheu, e ela sobrevive da tortura que ela mesma a infringe. Dá saudade do beijo e põe cigarro aceso na boca. Dá saudade do calor de outro corpo e bebe café frio. 

"Não deveria ter deixado-o partir". Não deveria mesmo, pois tudo veio desabando com tal velocidade que decidiu por desabar naquele sofá. A porta destrancada denuncia a vontade de que ele volte. E tudo o mais que está fora do lugar, também. "Amor, que droga é essa?"; falar de dor agora é fácil, pois esta toca-lhe a pele e adentro ao seu âmago. E dói. 

Evitar a janela já não é tão fácil. São 24 andares e se for até o terraço contará mais alguns. Mas, jurou nunca ser fraca o suficiente ao ponto de findar sua vida por amor. Era o que fazia resistir aquela tentação. "Não deveria ter deixado-o ir". "eu vou". "Não, não, eu resisto". 

"Você, com tuas manias estúpidas, me impede de ser feliz. Teu ciúme que me persegue a cada amanhecer, essa tua necessidade de apego e toda tua carência. Seja homem e faça o papel de um. Pare de mendigar por afeto, pare de me sufocar com cinco ligações matutinas, três vespertinas e umas duas noturnas até eu chegar. Não sejas tão sentimental, você não sabe que mulheres como eu não suportam isso? Pegue esses teus papéis, poesias não me comovem, histórias de amor também não. Amor, que coisa tola que tantos adoecem e tantos se enfraquecem. Não quero que diga que me ame sempre que eu acordar, só acorde e pronto. Está me sufocando toda essa sua necessidade de mim, me deixe ser leve, me deixe voar e respirar. Engula tuas poesias ultrarromânticas e acabe de vez com esse pessimismo, a vida não acaba quando eu não estou contigo."

Aquelas palavras que saíram direto da sua boca para esbofetar teu amante interlocutor arrancava-lhe a vida agora. Que palavras tolas, vinda de uma tola, de uma fraca. Que tolice de amor que agora a enfraquecia. Ele pegara apenas uma mala e ajuntou algumas poucas coisas e saíra. Fizera papel de homem não procurando-a. E agora lhe perseguia a imagem daquela face chorosa que nem implorou. Ele aceitava ser infeliz, mas torná-la infeliz jamais aceitaria. E por isso partiu. E como ela queria a fraqueza do amor, como queria aquele sufoco, aquela paixão desmedida, aquelas ligações - seu telefone tornara-se mudo desde então - queria tudo de volta. Queria era a carência dele e todos os "eu te amo" matinais. Mas, ele que de tão fraco de amor por ela, estava sendo forte para não alimentar a infelicidade dela. Mal sabia ele que ela planejava cair daquela janela, mas não queria acabar com a dor, porque aquela dor iria carregar sempre por culpar-se por perder o que mais a preencheu.


            - Da série: Que se finde a vida quando acaba o amor

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Happy birthday, Paula.

A gente cresce sempre querendo mexer no tempo. Se para o passado ou futuro, não importa, mas queremos tê-lo por pura posse e necessidade, porque o tempo ainda não conseguimos domá-lo. Aos 5 anos eu queria ter de volta os meus 3 para ter minha avó e minha mamadeira de volta. Aos 6 decidi que queria ter 10, porque minha irmã tinha 10 anos e eu também queria ter. Aos 10 queria ter 15 para deixar de vez a infância e ser adolescente, menina moça. Mas, aos 14 comecei a acreditar que não era tão legal esse acréscimo de anos…Aos 15 queria definitivamente meus 14. Aos 16 queria os 15 e aos 17 queria os 16, porquê meus 16 anos foram incríveis e daí vieram os 17. Dezessete é definitivamente uma idade legal. Mas, hoje vieram os 18, e como eu queria meus 17. 18 pesa mais por todo o rótulo que vem com ele e a responsabilidade quem vem de brinde. Fazer aniversários deveria ser bastante legal, mas há alguns anos não acho tanto. Adoro o dia 24 de agosto, adoro o carinho de todos que se lembram, mas festas de aniversário me deprimem. Não gosto das minhas festas de aniversário desde a dos 15. E todo ano eu tenho que fazer aniversário de novo, rs. Mas, que seja mais doce essa idade e que até eu me deitar que eu aceite com facilidade que os 18 chegaram e não há nada que eu possa fazer. 

sábado, 20 de agosto de 2011

Oito dias por semana, 365 dias por mês.






Tu veio caminhando com aquele estilo "alternativo", perguntastes meu nome e me passou teu número. Fiquei com cara de bobo, como qualquer homem ou moleque ficaria. Tu com teu 1,70m de altura, um corpão e um cabelo castanho pouco abaixo dos ombros, veio até mim e me deu teu número.

Não liguei no primeiro dia por pura covardia. Mulheres como você não ficam com caras como eu. Meus amigos ainda ajudaram, dizendo que deveria ser alguma brincadeira de mal gosto, algum trote. Não liguei. Tu me apareces na segunda semana e vem toda brava me perguntando porque eu não liguei. Fiquei mudo e novamente todo bobo. Disse que havia perdido, que era meio desastrado e tolo assim mesmo. Para minha completa surpresa tu sorristes. Fez charme, mexeu no cabelo, segurou meu antebraço e fechou os olhos - ainda rindo - por alguns segundos. Naquele momento, com o vento e destino ao meu favor, veio teu cheiro e teu gosto em mim. Naquele momento, foi quando me perdi, foi quando tudo se perdeu.

Depois daquele dia em que você me chamou para um encontro e me pagou uma cerveja - "que mulher mais macho é essa?" - eu já sabia que não tinha volta. Eu era só um idiota que cursava o segundo ano de letras e você era a formanda de sociologia. Não havia garota mais determinada que você e nenhuma tão atrevida quanto.

Tu me olhastes curiosa quando chorei vendo teu filme favorito "Antes que termine o dia", eu me surpreendi por não chorar. Tu me disseste que não chora assim não, só gosta do filme porque te dá uma "agonia". Ri entre lágrimas e te beijei assim mesmo. Depois de um tempo aprendi que você gostava de poesia, mas nada te comovia. E eu era sempre o sentimental da relação. Fui eu quem primeiro disse "eu te amo", você apenas me retribuiu com um beijo. Fiquei louco por algumas semanas, pensei em terminar, diria que não sou forte para essa relação, que eu queria alguém sentimental e que me dissesse eu te amo também. Mas, uma semana depois, me chamou pra tua cama e disse-me em meio a todo o calor do momento: "não sou mulherzinha de dizer eu te amo, mas não há ninguém que me faça mais sentido do que você".

Tu me pegou pelos olhos que comem qualquer coisa que prenda tua atenção. Tu me teve desde o dia que disse: "Eight days a week - The beatles é minha canção para você". Tu me teve quando me escreveu um livro de 100 páginas sobre você, para eu chegar na última página e ler um conto tão romântico que pôs qualquer escritor de lado. E com essas 100 páginas me fez ver que eu não sei nada sobre você. Tu me teve com tua cara de séria, mas principalmente na tua primeira risada, a mais infantil de todas. Me teve quando a vi menina, mais menina que mulher. Me teve quando a vi querendo fazer revolta pelo movimento "segregacionista" que começou a se formar na faculdade. Tu me teve quando dissestes ficar louca quando tô de óculos, camisa xadez, allstar e violão. Tu me teve quando me escreveu estórias de puro romance e erotismo. Tu me teve quando dissestes que eu deveria ser escritor, porque você acha isso muito atraente.  Tu me teve naquele dia que veio caminhando até mim...

E hoje, tu me vens, me beija por petulância e pede que eu cante eight days a week para ti. Eu sou teu, mulher. Eu sou teu por aprisionamento, por rendição. Sou teu porque não sei não ser. Sou teu porque aceitei o fato de eu ser bobo, e de que, nesta relação sou eu o sentimental, sou eu a parte feminina dos relacionamentos. Porque sou eu quem chora vendo filmes de romance, sou eu quem liga para saber como está e sou eu quem está nas tuas mãos. Mulher, sou teu, por puro prazer. Mulher, porque você me faz homem como ninguém.

"Hold me, love me. I ain't got nothin' but love, babe. Eight days a week I love you.
Love you everyday girl, always on my mind. One thing I can say, girl: Love you all the time."


Deixa eu brincar de ser feliz.

Você riu da primeira vez que cai perto de você. Eu sorri, mais por constrangimento do que por graça. Fiquei toda vermelha por debaixo das minhas bochechas morenas e você riu até ficar vermelho na sua pele branca. E depois me veio com a ideia de andar de patins. Quis perguntar se era louco, dado o meu desastre ao andar, mas quis mostrar que era forte. Você pôs meus pés 35 dentro daquele patins masculino - provavelmente 40. E eu fui toda determinada a alcançar tua mão antes que caísse, achei que você deixaria isso acontecer, mas me firmou. E ficava rindo sempre que me equilibrava, eu tentava não ficar mais morena de tão vermelha. 

Você riu no nosso primeiro encontro - como namorados oficialmente - quando, ao entrarmos juntos na escada rolante, eu desequilibrei. Você riu tanto que as outras pessoas olharam, mas eu ri junto e dei de ombros. Você já sabia do desastre que eu era. Aí você me leva àquele restaurante, à meia luz e bastante aconchegante, mas meio caro, só porque era novo e estava na moda. Eu estava de calça jeans, allstar e blusão de frio vermelho. Não podia estar mais simples ou desarrumada. E você riu quando expressei isso em voz alta, me fez olhar para o allstar - verde musgo- que estava nos seus pés, me disse que eu estava linda e que provavelmente não havia nenhum casal tão sincronizados como nós ali.

Você riu quando eu falei em voz alta o que pensava. Você riu pela desordem que eu era. Você também riu das minhas teorias e provavelmente ria de tudo o que eu falava. Você ria da formo como eu caminhava, concentrada para não cair, e da forma como comia. Você ria da maníaca que eu sempre fui e com o tempo se alinhou à todas elas, sabendo que, comida no prato não se mistura e devem estar disposta em uma certa posição. 

E eu que nunca fui de rir, com exceção dos risos de conveniência em jantares em família, acostumei-me a isso. Ria sempre, de você, com você, por você. Eu ria quando acordava, quando te via e quando nos falávamos. Até que me considerei dona da música "Todo carnaval tem seu fim", vivia colocando a mão no meu nariz de bolinha e cantando "deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz".

E você um dia me veio como naquela música do Pato Fu - uma das poucas bandas que não concordava comigo - "desculpe, mas vou te fazer chorar". E eu chorei, chorei pelos anos que lágrimas se solidificaram no peito ou se transubstanciaram em sorrisos. Lágrimas que até tinha desconhecido do que são feitas....de pura dor.

Agora, devo dizer, que não vou mais chorar. Não vais mais me fazer chorar. Desculpe, meu bem, mas não quero mais. Depois de tantos risos, chorar não foi legal. Então não me faça mais rir, se depois eu vou chorar. E eu não vou mais rir de você e/ou com você. É uma promessa. Mas, aí eu te vejo....

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sobre sentir saudade, missing you e te extrañar.

Eu tenho que confessar, ferindo todo o meu orgulho, vaidade e amor próprio, que me mato de saudades suas. Eu não morro porque é proposital, eu me mato mesmo. Me mato ao pensar em você enquanto escuto "50 receitas" e bebo coca-cola. São doses letais. Mas, eu sinto sua falta, mais do que isso, eu sinto saudades.
Pensei em escrever em inglês, porque com teu jeito ignorante de rejeitar a educação não sabe outra língua a não ser a língua mãe - que, sem economizar na acidez, teu português é péssimo. Mas ficava a lacuna do "I miss you", porque isso não tem uma gota do mar que cabe em saudade. Então, esnobando-o ainda mais, pensei no espanhol, porém voltei ao mesmo problema "te extraño" não é saudade.
Que saudade é essa que sinto de ti? Deveria ser simplificada e facilmente descrita por I miss you. No entanto, é saudade. Saudade rasgada, cortada, que vem do peito,desce em lágrimas pelos olhos e morre na boca. Fico com a boca seca por beber tantas lágrimas salgadas. 
Eu sinto uma raiva imensa de você, tanto é que tô rasgando tuas fotos. Como uma daquelas adolescentes ridículas ao término do primeiro namoro. Fico em descrédito comigo mesma, ponho em cheque todos os anos de mulher-madura-com-ar-de-30. Me faço com 14 anos e um namoro platônico. Só por raiva. Só por descontrole. E nossa história dura muita mais do que primeiro namoro. Foi primeiro tudo. Tu fostes o primeiro amigo de uma menina, fostes o primeiro namorado e mais que isso. Se gruda nas minhas memórias e se prende a tudo que gosto. Meu primeiro contato corpo-a-corpo é teu. E tu finges que não fostes. 
Eu só tô esperando você voltar para poder dizer que já é tarde. Engolir a saudade e arrotar meu orgulho - e, se eu conseguir, uma dose de amor próprio. Porque sentir saudades assim é desumano. E você merece sentir arrependimento.
Só te peço que não me venhas recitando um quote do meu livro preferido, nem de camisa surrada, allstar - e, imploro que não o faça - sorriso de lado. Se o fizer tu sabes que me quebra no meio. Me reparte em duas, e na bagunça da divisão, escolho você ao meu amor. Mas, você é o meu amor, e que se dane o próprio. 
Então, em português e desprezando algumas regras, digo que tô com saudades. Dê um alô às três da manhã, me pegue de surpresa na porta do trabalho, mas, mate a saudade enquanto ela não me mata, eeer, enquanto não me mato. Eu prometo ser leve e dizer I miss you, ou te extraño, para não carregar demais o "tô com saudades" e não acabar entregando tudo que sinto.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Entre extremos

É desse equilíbrio que tanto falam que nos faltou. Dessa harmonia entre diferentes notas musicais. Porque você e eu nunca tivemos saída. 8 e 80. Princípio e fim. Vivemos de extremos como se isso fosse o certo. Ou no alto do penhasco, ou rastejando no chão. Não sabíamos ser mornos ou frios, éramos quentes ou congelados.  Sempre atrasados ou adiantados demais. Nunca nos ajustamos para estar no tempo certo....Tempo, sabemos bem que fomos reféns dele. Éramos antíteses de nós mesmo. Vivemos desafiando a gravidade, sempre prestes a cair, sempre tendendo mais para um lado do que o outro. Ou harpa ou guitarra. Nunca procuramos a afinidade em nenhuma dessas coisas, nenhum acordo, nenhum acorde, nunca nos equilibramos, nunca harmônica, nunca sinfônica. Éramos bambos, tortos, assimétricos. Desfigurados, desmedidos, descuidados. Instáveis como bomba e balão, sempre prestes a explodir. E agora que se se desata nossos nós, que se desata nós, que se arrebenta nosso laço, eu me arrebento e perco esse equilíbrio com que caminhava e que nunca tive.

domingo, 14 de agosto de 2011

À quem primeiro me amou,


Pai,
de todas as coisas que eu poderia aprender com você, aprendi a aprender. Além do amor e de amar, você me ensinou a aprender. Me ensinou significações.
Amor, foi a primeira coisa que aprendi. E foi tão simples essa lição que aprendi a amar. O significado de amor se entrelaça na nossa relação. E eu aprendi por receber todos os dias isso de você.
Coragem, você sempre soube da grande medrosa que eu era. Sempre soube da minha covardia escancarada, mas você me deu tua mão. Você me segurou, me firmou e quando eu estava em queda livre, me ajudou a levantar. Com minhas mãos na tua, aprendi o que é ter coragem para desafiar o mundo.
Confiança, é o que tenho com você. Eu sei que em quantas vezes eu partir, em cada volta minha, eu vou ter teu abraço pra voltar. Sem olhos críticos ou palavras de repreensão, vai me abraçar e simplesmente sorrir por eu ter voltado. Eu confio que teu abraço sempre vai me esperar. Porque você me deu confiança, em todas vezes que fui, nas mesmas que voltei. Porque você confia em mim. É você que me disse “eu sou mais você” enquanto nem eu sabia ser… eu.
Sabedoria, é essa coisa que transborda dos teus olhos acompanhando tua boca quando fala. Porque eu posso ler todos os livros do mundo, mas nenhum deles me dará sabedoria, eu só terei conhecimento. Porque olhar em teus olhos é ver que todas as respostas do mundo residem ali. Você que foi meu primeiro - e melhor- professor. Queria saber como você faz para ser tão sábio, deve ser coisa de pai.
Pai, o orgulho é talvez o único sentimento que se aproxime do amor que tenho por você. Porque não há filha no mundo que se orgulhe mais do que eu por tê-lo como pai. Você, que é o homem mais justo, mais honesto e o melhor que eu já conheci. É o homem que eu mais amo, e a pessoa que eu mais me importaria de perder. Você sabe que se eu tivesse que escolher outra forma de ser eu seria você.
Eu posso ver por teus passos lentos e calmos que já percorreu uma grande estrada para chegar até aqui, mas são esses mesmos passos que mostram a sua “não-pressa” de viver. E que se caminha assim o faz porque sabe que ainda há mais para caminhar.
Se eu quase não o vi chorar, não foi porque lágrimas são sinais de fraqueza, mas porque estas se fizeram desnecessárias diante o tamanho da sua luta.
Obrigada por todas as vezes que me corrigiu, que me acolheu e que zelou por mim. Obrigada por me fazer acreditar que todo o amor do mundo reside aqui em casa. Obrigada por ser a minha referência, por ser quem mais admiro e mais amo. Obrigada por eu poder bater no peito e chamá-lo de MEU PAI. Você que é o melhor pai.
Porque ninguém recebeu mais amor do que eu de você. E você sabe que me doi crescer pelo simples fato de que um dia eu terei que me ver sem você. Sem ter o meu papai. 
Eu te amo, mais do que é permitido amar. O amo sem medidas, sem razões e sem porquês. Te amo não só por estarmos condicionados à relação pai-filha, mas porque é impossível não fazê-lo. Te amo pelo simples fato de que te amar é o que me faz feliz.
                                                                            Feliz dia dos pais, à quem                                                                  para sempre amarei e me amarás. 
                                                                                             Paula. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Escreva-me. Um carta com várias páginas, um bilhete curto, um telegrama, uma sms, ou uma mensagem instantânea em qualquer rede social. Mande um aviso por um amigo em comum, deixe com o meu porteiro, ligue. Use qualquer forma de comunicação. Eu só tô pedindo para que você dê algum sinal de que ainda se importa, de que ainda vem aqui de vez em quando, ou que ao menos pensa em mim. Eu só quero ter a certeza de que ainda existo para você. Que talvez, em proporção mínima, você sente a minha falta. Eu só tô perguntando, se ainda vens aqui. Ou se estás disposto a vir. Só me diga que você vem e acabe com essa saudade de uma vez. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Você sempre me teve como garantia, como reserva de paixões mal sucedidas. "Tudo bem se esse caso não der certo, ela vai estar a me esperar". E estive, esperando-o por menos do que pude, por mais que me doesse. Estive com sorriso no rosto, feridas no coração, medo nos olhos. Mas ficava esperando-o no portão, com um pedaço de felicidade na boca só para não vê-lo triste. Você sempre me teve como menina, daquelas que um presente perdoa o que tinha para perdoar. E eu sempre aceitei seus presentes de volta; um beijo, uma promessa, um abraço. Mas nunca foi mais que isso. Nunca fui suficiente para incomodá-lo. Teve-me com garantias demais, estava próximo do teu alcance, pronta a te alcançar se se distanciasse. Eu sempre o tive por incerteza, por dúvidas e medos. Nunca soube teus horários de chegada, teus momentos de partida. Sempre esteve indo e vindo, por mais que pudesse ficar, por menos que precisasse.

domingo, 31 de julho de 2011

"caí no meu patético período de desligamento"

Caí mais uma vez nesses desligamentos, necessário e proposital desta vez. 4 meses me separam do meu projeto e sonho deste ano, 4 meses. "4 meses" é tudo que fico repetindo para me motivar. "4 meses" e então tudo acabará. Tentarei vir aqui, não com frequência, mas não me deixem. Sempre que palavras saltarem dos meus pensamentos, prometo escrever aqui. O tumblr será atualizado pelo queue, então se quiserem acompanhá-lo, é escassez. Me desejem sorte, apoio e que eu tenha determinação e persistência para conquistar meu sonho.

- P.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

E isto aqui não é uma carta para você.

E quando você disse "há tanto tempo que sonho com teu sorriso, menina", com teus olhos alinhados aos meus, acreditei que isso fosse uma promessa. Uma amostra grátis do teu amor e do teu sentimento que me doparia com doses cada vez mais exorbitantes por muitos e muitos anos, até eu me curar de mim. Pensava ter mais duração o efeito deste teu fármaco, mas no fim, bem no fim, como todo remédio, se em excesso, vira droga. Fostes esta droga, droga de mim, droga dentro de mim, droga de amor.

Há tempos vim ensaiando essa verdade que me tapa a boca, hoje por alguém motivo, decidi que talvez eu devesse ter coragem de te falar. Tenho guardado em uma papel rabiscado por outras coisas, e de forma codificada, cada data ou dia especial, mas por preguiça ou medo de retirá-lo da caixa de lembranças, decidi colocar de cabeça mesmo tudo que lembro. Não confie em nenhuma delas, como eu mesma não confio em você agora.

Estranha-me lembrar das nossa conversas, como vivo insistindo, nunca fui de prestar muita atenção ao que dizia, você falava muito. Mas, esforçando-me para lembrar, uma me veio como relâmpago na memória, bem espontânea. Foi um caso cotidiano, que envolvia uma amiga tua, um sobrenome, uma atendente e o nome da minha loja preferida. Não sei porque me lembrei justamente disto, talvez no dia não estivesse tentando gravar teu cheiro, ou roubar-lhe um beijo. Sempre fiquei meio alerta nos momentos em que passamos juntos. Acho que  entrava no automático, vagamente consciente de que você falava, mas sei de cor todas as cores que compunham o reflexo do céu no teu olhar. Sei também o gosto do teu cheiro, e o perfume do teu beijo, então acho que isso serve de desculpa.

Para não se sentir ruim, vou citar algumas datas, para provar que às vezes eu prestava atenção. Lembro-me da conversa do dia 21/01, de uma lágrima solteira que me escorreu pelo olho esquerdo, e de tua mochila nas costas quando me abraçou na porta de casa. Lembro-me da madrugada de um mês para o outro, não sei se janeiro/fevereiro ou fevereiro/março, mas saí de casa em um dia e quando voltei tinha ganhado o primeiro beijo teu e era outro mês. Fostes uma desculpa tão ridícula que arranjastes para me seguir...Lembro-me do dia 18/03, eu, você, uma cadeira e um beijo quente. Dia 19/04, um passeio de carro sozinhos, última vez meu.. Daí, dia 21/04 fostes adeus. Mas, é claro que estamos falando de alguns anos atrás e nossa história não terminou há tanto tempo. Daí, me lembro do dia 12/06, uma surpresa, uma declaração, uma caminhada e muitas meninas me invejaram pelo que fizestes. 14/06, uma palco, uma plateia, uma conquista. 19/06, um banco, minha cabeça em teus ombros, tua blusa preta que até hoje invejo, e depois de tanto tempo e descasos nossos lábios se encontraram. Sem datas agoras, lembro de beijos encostados na parede, de beijo de chocolate e beijo de cabeça para baixo. Lembro de um tapa na tua cara, só pra te provocar, só para me puxar em um beijo mais quente. Lembro-me de ajoelhar aos teus pés, e mendigar por teus lábios, quanto tempo duravam aqueles nossos beijos? Lembro dos teus braços envoltos sobre mim, lembro de ter um sorriso teu no meu rosto, lembro de um beijo-sorriso. Lembro de uma tarde atoa, rolando no chão juntos, ultrapassando alguns limites, tornando nossos corpos íntimos.

Tem muitas outras conversas de corredores, de computador e trecho de músicas que poderia citar aqui. De filmes não visto, de risos esganiçados, de beijos, muitos beijos. Que boca boa tu tens. Que sabor bom, um beijo teu. Saudades de caminhar ao lado do teu allstar, saudade de me receberes na porta com um sorriso meio falho, e um 'e aí?' como cumprimento. Saudades dos nossos trocadilhos, das nossas poesias, conversas de dia a dia, beijos de bom dia. Saudade demais. Acho que fiquei com as saudades, tu ficastes com meu coração.

Mas vim enrolando até, excedendo nas palavras e detalhes, entregando-lhe memórias que poderás usar contra mim, só porque não queria chegar até aqui. Não quero mais me contorcer inteira na cama ao sonhar contigo, não quero passar o dia inteiro com teu gosto porque à noite me veio ao sonho, sorrateiro e bandido como sempre fez. Já não me caibo de saudades e lembranças tuas, e hoje é uma dessas datas nossas. Eu já não quero ter que caminhar fingindo por aí que teus passos não me fazem mais companhia. Não quero, tens me incomodado. Quanto tempo durou esta história mesmo? Não importa, tenho colocado reticências e prolongado este período por tempo demais.

A verdade é que tu nunca fostes tudo o que eu quis. Nem era quem me completava. Tu sempre esteves transbordando dentro de mim, me excedendo, me derramando. Sempre fostes de ideias leves, que qualquer vendaval poderia tirar da tua cabeça, enquanto outras pessoas lhe davam novas. Na verdade, tu roubava o jeito das pessoas. Tá aí, tu me roubastes. Então devolva-me agora, porque não vai continuar me arrastando pelo tempo assim. Tu esgotou minha capacidade de tolerar idiotas, ninguém é interessante quando comparo a ti, simplesmente porque ninguém é você. Vontade louca de te xingar na cara, gritar, te bater, para me controlar e me roubar um beijo.

Fiquei durante muito tempo pensando em te procurar, mas foi tu que me deixastes para trás, seguistes caminho e não sei aonde estás agora. Eu continuo aqui, com tudo o que foi nosso. Então sabes aonde me encontrar. Não quero viver para sempre com tua sombra em mim, nem queria viver sem ti, mas já me acostumei. Confesso que queria que voltasse, não sei se é para te deixar, ou deixá-lo ficar na minha vida. Acho que o deixaria ficar, não sei te dizer não.

Se prestastes atenção por tempo suficiente meus olhos me trairão e te contaram tudo, mas prometo fechá-los. Eu vim até aqui, neste texto enorme só para te dar preguiça de ler e não saber tudo que queria te dizer, mas eu queria mesmo te dizer que ainda gosto demais de você para gostar de mim. Ainda sinto uma saudade sufocante e dolorida do nosso tempo, de você. Mas, tudo o que eu queria dizer é que não quero mais sentir isso. Não quero viver pra sempre sufocada pela memória do que passamos, pela dor que vivi, pela minha covardia de nunca ter te procurado. Bem, eu não te quero mais. Não quero mais sentir amor nem saudade. Não quero. Queria dar um adeus, mas tenho medo de querer ficar. Fique bem, cuide de sua felicidade, e me deixe de uma vez. Me deixe ir e fazer o mesmo por mim.

E isto aqui, não é uma carta para você.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Para me definir.

Minha menina, não posso te deixares, és incompetente para cuidar se si mesma. Se não te lembro, tu simplesmente se esquece de comer. Se não anoto na tua agenda, perde teus compromissos. Não sabe nem mesmo andar sem cair. Tu é esse emaranhado de confusão e desastre, é esse conjunto de medo e segurança que me faz perder a cabeça. Eu sou perdido em você. Tu desafia a escuridão, mas sai correndo para a cama assim que apaga a luz. Cria teorias que te define só para contradizê-las. Arruma teu guarda-roupas porque diz que se ele está bagunçado a tua vida também fica assim, mas você é bagunça, aceite isso, menina. Se pinta de maquiagem, coloca salto alto, disfarça o decote, e depois brinca de ser menina. Você tem um coração e jeito de criança em um corpo de mulher com uma cabeça de uma idosa. Dorme de coberta no calor, mas joga-a no chão no inverno. Anda desfilando confiança porque sabe que vai cair, mas não temes a queda. Aceitaria brincar de roleta russa, mas morre de medo de escada rolante, quando confronto-a de o porquê responde com uma dar de ombros "escadas já são um desafio, em movimento então, são aterrorizantes, sempre tenho medo de pisar no  início delas, me parece que vou pisar duas metades de degraus, então eles vão se abrir e eu vou cair". Você cuida de livros como se dentro deles batessem corações, chego a desconfiar que eles tem mais a tua atenção do que eu mesmo. Você se diz decidida, mas sempre pede dos dois sabores porque nunca sabe de qual gosta mais, temo que um dia tu conheças outro garoto e fique provando de nós dois. Você anda caindo, acertando os móveis, colidindo com chão e parede. Você nunca me escuta, por isso tô te escrevendo para que talvez tenha tua atenção. Você critica padrões, mas padroniza tudo que tem. Você tem essa mania de organização, de colocar tudo em certa lógica que ninguém entende. Mas, menina, tu és bagunça. Tu és caos. Por isso não te deixo, porque eu sei que não sabes cuidar de si. Tu cuidas de mim, dos teus amigos, tu te importas com a fome do mundo, com a miséria, mas ao final do dia esquece-se de si. Você me é mistério desvendado, mas nunca te conheço por completa. Mas, menina, eu vou ficar aqui, para te manter inteira e viva, vou ficar porque é incompetente demais para cuidares de ti, mas eu cuido, eu sou profissional em cuidar de ti.

Ass: Teu não mais menino.