domingo, 28 de novembro de 2010

Até mais...

Eu já não esperava outra forma, nem tampouco esperava. Não éramos ligados a conceitos, à chegadas e à partidas. Se nós encontrássemos, sorríamos, e então ficávamos juntos. Quando saíamos, não havia um olhar, um beijo, ou um abraço de despedida, apenas partíamos sem um mero adeus. Vivíamos de chegadas e partidas sem tomar consciência de que era o que fazíamos, chegávamos e quando menos se notava; partíamos. E quando nos encontrávamos novamente, não importava o adeus não dado, o oi não pronunciado, ou todas as dores silenciadas, simplesmente coexistíamos sem importar com tempo, conceitos, ou qualquer outro clichê. Como se nunca houvesse de fato, uma chegada e uma partida. Talvez fosse esse o propósito, tentar não notar. Um dia porém, um adeus diferente foi dado, não que este tivesse sido dito, apenas foi notado e soube-se que já não haveria reecontro, não da forma como costumava ser. E toda a dor, a saudade, e o sentimento, foi igualmente esquecido como aquele adeus, jamais dito.

Não foi assim que eu sonhei a nossa vida, a despedida seria até logo mais. Mas a vida não permite ensaios, não há raios antes do trovão. Não olhe para mim como se eu fosse invisível, como se fosse possível enxergar nessa escuridão. Não olhe pra trás, odeio despedidas.
Diga: até mais!
Mesmo se for adeus... (Até mais - engenheiros do hawaii)

sábado, 27 de novembro de 2010

Ressonância

Quando faltou-nos ressonância, foi quando tudo se perdeu. Perdemos a sintonia e já não vibrávamos na mesma frequência. Houve uma interferência destrutiva e nossas ondas se dispersaram. Oscilou uma, duas, oscilou por um período completo, é já não havia mais o mesmo acorde. Não nos encontramos no primeiro harmônico, que era tão fundamental. E eu que era tão mecânica, passei à eletromagnética, e por assim ser, ao vibrar no vácuo, já não havia a sua vibração, o seu eco, nem tampouco havia o nosso som. E aquela nossa harmonia, tornou-se apenas a minha pertubação.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

expectations

E então eu o vi, não conseguia acreditar, mas era ele. Sem dúvidas, era ele. Ele estava vindo em minha direção, e eu estava com a cabeça levantada, fingindo não olhá-lo, e quando ele estava perto o suficiente, eu abaxei a cabeça e então ele passou, se foi. Não me chamou ou me disse 'oi'. Pudera, eu nunca fiz o mesmo, ele nem ao menos sabia meu nome, ou quem eu era. Amanhã eu falo com ele, amanhã, hoje não. Eu me convenci disso, e era assim todos os dias.

sábado, 6 de novembro de 2010

Lifeless

   Havia sido um dia improdutivo, o daquela garota. Ela se levantara como quem se levanta em um dia de guerra; desprovida de motivação e contando à cada minuto para acabar. Se dirigiu ao chuveiro, deixou que a água caísse sobre o seu corpo na tentativa de aquecê-lo, embora o dia que mal amanhecera estivesse bastante quente. Após sair tentou se encarar no espelho do banheiro, uma tentativa frustante, uma porque estava embaçado pelo vapor do seu banho, outra porque mesmo depois de limpá-lo com uma das mãos e finalmente poder se olhar, continuava embaçado. Não pelo vapor, mas o seu rosto estava embaçado. Seu rosto era como um daqueles personagens que preenchem uma tela, sem emoção, sem importância qualquer. Mas, embora fosse isso o que estava demonstrando, não era exatamente o que acontecia em seu interior.
   Enquanto seu rosto não transmitia nada, por dentro, se destruía. Era um verdadeiro pandemônio, era como uma fábrica produzindo em larga escala com um prazo curto para a entrega. Cada mísera área responsável por não deixá-la desmanchar-se em lágrimas. Se bem que, lágrimas seria quase impossível, uma vez que tornara-se pó. Vestiu-se com as primeiras peças que encontrou, calçou um tênis que lhe era mais confortável, colocou seu uniforme, prendeu o seu cabelo no que supusera ser um coque desajeitado, e saiu de casa. Seu corpo ansiava por comida como outro qualquer, mas não era exatamente o que ela ansiava. Era algo mais, algo que lhe fora tirado.
   Durante todo o caminho, de sua casa até a sua escola, procurava não pensar. Pensar era algo doloroso, algo que se faz quando se importa, quando se vive. Ela não vivia, por isso não pensava. Acompanhava os carros, os sons, as cores, e ignorava as pessoas. Entrou em seu colégio, sentou-se nem no fundo nem na frente, mas evitou o centro. Colocou sua mochila de lado, retirou o seu caderno, e esperou pelo que viria. Não conversou com ninguém, não escutou ninguém, não viu ninguém. Tinha uma breve consciência que havia alguém na frente falando, falando, falando, sabia que algum dia aquilo poderia ser importante, mas ignorava.
   Abriu seu caderno em uma matéria não utilizada. Escreveu devaneios no alto da página e começou a escrever palavras soltas e sem sentido, fez alguns desenhos também sem sentindos. A única coisa que fizera sentido era o título 'devaneios'. E começou a devanear, se viu em um lugar diferente, em um campo aberto, deitada em uma grama verde, com os olhos fechados, ventava forte, e o sol incindia exatamente sobre o seu corpo, e deixou que aquela sensação de liberdade, de paz, a preenchesse. Ela fechou o seus olhos, assim como em seu devaneio. No seu devaneio sorria, na realidade não. Ela queria muito, mas não conseguia, como se não lhe fosse permitido, como se não se lembrasse como fazê-lo.
   Não se lembrava exatamente o que havia feito do restante do seu dias, mas estava em sua casa e o sol já se pusera. Estava escuro e quente, mas ela tremia de frio. Parecia ser de madrugada, a rua estava silenciosa, as luzes todas apagadas, olhou para o céu e encarou as estrelas. Começou a pensar, e por pensar voltou a viver. E começou a sentir tudo o que estivera evitando durante todo o dia; a tristeza, a dor, a ânsia, o medo. Lágrimas não saíam de seus olhos, mas por dentro, era como se uma maré tivesse atingindo-a. Ela se afogava naquela água salgada, mas somente em seu interior. Por fora continuava pó. E apesar da sensação da maré por dentro era pó também, todo o seu ser, toda a sua existência eram apenas pó. Olhou para as estrelas com o que pensara ser um olhar indignado, mas na verdade era digno de pena. Ela as olhou e contestava internamente a vida. Desejou que tudo aquilo tivesse fim.
   Depois de algum tempo, por desistência, deixou mais uma vez a dor se aponderar e chegar ao seu ápice. Desfaleceu em sua cama, onde sem sonhos, dormiu até o próximo dia onde viveria tudo outra vez, dia após dia.