quarta-feira, 1 de julho de 2009

incapacidade

-Eu não compreendo, parece que está sempre se esquivando. - disse ele, com os olhos afogados em dor.

-Eu sei como explicar isso. Eu queria em palavras poder explicar, o que nem a minha mente consegue entender. Eu já não sei como me sentir. É nauseante, sentir-se assim. Sem saber o que. Eu há muito tempo atrás, tinha uma certeza. Mas, essa certeza era feita de sonhos. De desejos profundos do meu coração. Nessa certeza eu firmei o meu futuro, a minha esperança. Construi um futuro que só existia em minha cabeça. Mas, quando isso se perdeu, eu procurei sufocá-los. Os coloquei em uma parte de mim, que era quase inabitada. Era pior que isso, sombria. Lá eu guardei a melhor parte de mim, que era o meu reflexo, o que eu sentia por você. Deixei por meses abandonada aquelas lembranças. Era melhor pra mim, não era bom trazer o sofrimento de volta. Eu sufoquei junto com a minha capacidade de amar, tudo aquilo. Só às vezes eu me pegava relembrando, tarde da noite, quando a insônia se tornava minha compahia, vinha uma dor, que dilacerava por dentro. Eu chegava a duvidar que meu coração sobreviveria. Era quase impossível, bombear tanta...dor. Mas, eu me refazia, recompunha a máscara que usava. Voltava ao meu topor e assim vivia. Ignorando tudo, todos. Ignorava sons, movimentos, ignorei a vida em si. Quando achava que estava forte o bastante, eu tentava sair daquela cápsula. Mas, eu já me acostumara, pior que isso, eu gostava. Era melhor, passar despercebida pelo mundo, eu estava sempre tão absorta em pensamentos vagos, em meu mundinho. Passara tanto tempo em meu egoísmo desprezível que aprendera a ser assim. Quando finalmente me libertei da cápsula, percebei que não era bem uma cápsula, e sim uma parte de mim que esfriara. Era tão igualmente desprezível quanto meu egoísmo. Ela me afastava de sonhos e pessoas. De sentimentos... E agora, eu tento reerguer aquela pessoa que existia dentro de mim. Porque não julgo como ser humano, alguém com tanta incapacidade de amar. Mas, eu sei que a minha esperança é você. Os outros, ah, eu já desisti... Não há ninguém capaz. E em você que eu penso em tentar. O único que consigo imaginar. Eu não te quero longe de mim. E nem que desista. Ainda que eu me mostre tão incapaz, tão insensível. E você que eu quero aqui, perto de mim. O único. Só lhe peço, que não desista de mim. Eu darei o meu melhor, para amar novamente. Não aquele amor dependente. Mas, o amor, que me torne alguém melhor... alguém melhor para você.- respondeu ela.

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